O grito abafado da frustração. O silêncio estridente. No dia 13 de agosto de 2017, no Estádio Olímpico de Londres, a linha de chegada da final dos 800 metros rasos feminino não marcou apenas o tricampeonato mundial de Caster Semenya, mas selou um capítulo de controvérsia que ressoa até hoje. Eu estava lá, como correspondente do SporTV, testemunha ocular de uma cena que se tornou emblemática.
Enquanto a sul-africana erguia os braços em comemoração, um sorriso isolado em meio à multidão de flashes, o que se desenrolava na zona mista era um drama de outra natureza. As adversárias de Semenya, rostos contraídos em uma mistura de raiva e desapontamento, apressavam-se em passar, evitando contato e, principalmente, palavras. A prova, antes de mais nada, era a mais polêmica da competição, um reflexo do debate que há anos dividia o atletismo: a questão das atletas com Diferenças no Desenvolvimento Sexual (DSD) e seus níveis naturais de testosterona.
A vitória de Semenya naquele dia, obtida com um sprint final avassalador, foi o ápice de uma série de resultados que a colocavam no centro de uma discussão sobre fair play e inclusão no esporte feminino. Atletas e federações argumentavam sobre a vantagem biológica que altos níveis de testosterona poderiam conferir a Semenya, em detrimento das competidoras com desenvolvimento sexual feminino típico. A Federação Internacional de Atletismo (World Athletics, na época IAAF) já vinha explorando regulamentações que, para muitos, visavam diretamente atletas como Semenya.
Naquela noite, a própria campeã, visivelmente ciente da atmosfera carregada, também não falou com os jornalistas. Seu sorriso vitorioso contrastava bruscamente com a tensão quase palpável no ar, um silêncio que falava mais alto do que qualquer entrevista. As regras subsequentes, que entrariam em vigor e seriam alvo de batalhas jurídicas incansáveis, exigiriam que atletas com DSD e níveis elevados de testosterona natural reduzissem esses níveis artificialmente para competir em provas específicas, incluindo os 800m.
Semenya se recusou a se submeter aos tratamentos hormonais, alegando ser uma violação de seus direitos humanos e de sua integridade corporal. Sua recusa a silenciou das pistas internacionais em suas provas de preferência, transformando-a de campeã em um símbolo de resistência.
Aquele dia em Londres, com Semenya erguendo a taça em triunfo isolado e as demais competidoras em um silêncio eloquente de protesto, permanece como um divisor de águas. Mais de uma década depois, a questão da elegibilidade de atletas DSD no esporte feminino continua a ser um campo minado de ética, ciência e direitos humanos, sem uma resolução fácil à vista. O silêncio na zona mista de 2017 ecoa na ausência de Semenya das principais competições, um lembrete contundente de que, para certas vitórias, o preço pode ser muito mais alto do que o ouro olímpico.
Por Marcos Puntel
Fonte: https://redir.folha.com.br