O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, lançou neste sábado (9) seu livro “Capitalismo Superindustrial” em um evento no Sesc 14 Bis, na capital paulista. Durante um bate-papo com Celso Rocha de Barros e mediação de Lilia Schwarcz, Haddad provocou ao afirmar que “a classe dominante brasileira entende o Estado como dela, não é uma coisa nossa, é uma coisa dela.”
Em uma de suas teses centrais, o ministro defendeu que o Estado foi “entregue aos fazendeiros como indenização pela abolição da escravidão”. Para contextualizar, Haddad lembrou que o movimento republicano teve início um dia após a assinatura da Lei Áurea, em 14 de maio de 1888, alcançando êxito um ano depois. Segundo ele, esse movimento vitorioso “bota pra correr a classe dirigente do país e, no lugar dela, não põe outra coisa senão a classe dominante do país para cuidar do estado como se fosse seu. Nós estamos com esse problema até hoje.”
Haddad avalia que a democracia no Brasil se torna problemática e frágil por ser uma contestação a esse “acordão” sob os auspícios das Forças Armadas. “Quando é colocado em xeque, a reação é imediata. Você não pode tocar nisso, você não pode tocar em nenhuma instância. E, quando ela estica a corda, a ruptura institucional pode acontecer”, concluiu o ministro.
A obra “Capitalismo Superindustrial”, lançada pela Companhia das Letras, discute os processos que levaram ao atual modelo global, marcado por crescente desigualdade e competição. Haddad aborda temas como a acumulação primitiva de capital na periferia do capitalismo, a incorporação do conhecimento como fator de produção e as novas configurações de classe. O ministro alerta que a desigualdade tende a aumentar, transformando diferenças em “contradições” quando o Estado não mitiga os efeitos do desenvolvimento capitalista.
O livro reúne estudos de economia política e sobre a natureza do sistema soviético, realizados por Haddad nas décadas de 1980 e 1990, revisados e ampliados, e discute os desafios impostos pela ascensão da China como potência global. Haddad explicou que a ideia central foi tentar entender um padrão próprio de acumulação primitiva de capital no Oriente, que não se confunde com a escravidão na América ou a servidão no Leste Europeu. Ele aponta que as revoluções no Oriente foram antissistêmicas e anti-imperialistas, onde o despotismo e a violência do Estado serviram a propósitos industrializantes, ao contrário do que ocorreu em outras regiões.
Embora essas formas internas de acumulação fossem “ultra violentas e coercitivas”, externamente tinham uma “potência antissistêmica que apaixonava os povos em busca de liberdade e de emancipação nacional, e não de emancipação humana”. Isso, para Haddad, indica que se tratava de uma revolução, mas não uma revolução socialista. Sobre o sucesso ou fracasso desses processos no Oriente, o ministro pondera que, do ponto de vista do desenvolvimento das forças produtivas e da mercantilização da terra, do trabalho e da ciência, houve avanço. Contudo, em relação aos ideais que motivaram os líderes revolucionários, Haddad admite que “não atingiu seus objetivos”, evidenciando uma contradição inerente a esses processos.
Por Marcos Puntel