A crença popular de que a inflação galopante que assola o país é um mero reflexo da alta do petróleo nos mercados internacionais, embora parcialmente correta, esconde uma faceta crucial da complexidade econômica atual. Enganam-se os que atribuem a escalada dos preços unicamente aos choques externos; os estímulos fiscais promovidos pelo governo também desempenham um papel significativo na pressão inflacionária doméstica, agravando um cenário já desafiador para o poder de compra das famílias brasileiras.
É inegável que a variação do preço do barril de petróleo no cenário global exerce uma pressão direta sobre a cadeia produtiva, impactando os custos de transporte, energia e, consequentemente, o preço final de uma vasta gama de produtos e serviços. Esse é um fator exógeno, muitas vezes fora do controle direto das políticas econômicas internas, e sua influência é sentida em postos de combustíveis, prateleiras de supermercado e tarifas de serviços essenciais.
Contudo, a outra face da moeda revela a contribuição de políticas fiscais expansionistas. Programas de transferência de renda ampliados, desonerações setoriais, investimentos públicos e outras formas de injeção de recursos na economia, embora muitas vezes intencionados a mitigar impactos sociais ou estimular setores específicos, têm um efeito colateral: o aumento da demanda agregada. Quando há mais dinheiro em circulação, perseguindo a mesma ou uma quantidade limitada de bens e serviços, a tendência natural é a elevação dos preços. Esse fenômeno, conhecido como inflação de demanda, intensifica-se quando a capacidade produtiva do país não consegue acompanhar o ritmo do aumento do poder de compra ou da liquidez.
A combinação desses dois fatores – a inflação de custos impulsionada pelo petróleo e a inflação de demanda alimentada pelos estímulos fiscais – cria um ciclo vicioso de difícil controle. Enquanto o encarecimento das commodities eleva os custos de produção, as políticas governamentais garantem que haja capital disponível para absorver esses aumentos, sustentando a demanda e permitindo que as empresas repassem os custos com maior facilidade. O resultado é uma erosão contínua no poder de compra da moeda, afetando especialmente as camadas mais vulneráveis da população, que veem seus salários desvalorizarem em face da escalada incessante dos preços de alimentos, moradia e transporte.
Essa dinâmica coloca um dilema complexo para as autoridades monetárias, que precisam calibrar a taxa de juros em um ambiente onde as pressões vêm de múltiplas direções. Ignorar a contribuição dos estímulos fiscais seria simplificar demasiadamente um problema multifacetado, comprometendo a eficácia de quaisquer medidas destinadas a estabilizar a economia e restaurar a confiança no futuro.
Por Marcos Puntel