O cenário atual do varejo brasileiro é um lembrete contundente de que nem mesmo as maiores e mais tradicionais empresas estão imunes aos ventos da crise. Marcas como Casas Bahia e Marabraz, pilares do comércio nacional e símbolos de ascensão social para milhões de brasileiros, hoje travam uma batalha árdua para se manterem relevantes e, acima de tudo, solventes. A renegociação de dívidas, a busca por injeções de capital e a reestruturação de operações tornaram-se o novo normal para essas gigantes que, em outros tempos, pareciam inabaláveis.
Esta não é, contudo, uma novidade na história econômica do país. O varejo, por sua natureza, é um setor dinâmico e implacável, onde a capacidade de adaptação e a solidez financeira são postas à prova a cada novo ciclo econômico. O Brasil já testemunhou a ascensão e a queda de impérios que um dia dominaram o imaginário e o consumo nacional. Mappin e Mesbla são nomes que ecoam como gigantes que ruíram. Lojas de departamento icônicas, elas representavam o luxo e a variedade em suas épocas áureas, com filiais suntuosas e um catálogo de produtos que ia de agulhas a automóveis. No entanto, a incapacidade de se modernizar, a gestão de dívidas descontrolada, a chegada de novos formatos de varejo (como os shoppings centers e os hipermercados) e as crises econômicas da década de 1990 as levaram à bancarrota, deixando um vácuo no mercado e milhões de consumidores órfãos.
Os fatores que derrubaram essas lendas do passado não são muito diferentes daqueles que hoje afligem o setor. A alta taxa de juros, que encarece o crédito e desestimula o consumo parcelado (modalidade crucial para empresas como Casas Bahia), a inflação persistente que corrói o poder de compra e a ascensão meteórica do comércio eletrônico alteraram drasticamente o comportamento do consumidor. Se antes a briga era por um bom ponto físico e uma vasta vitrine, hoje o campo de batalha é digital, com a logística eficiente e a experiência online ditando as regras.
A Casas Bahia, parte do Grupo Casas Bahia (antiga Via Varejo), por exemplo, enfrenta o desafio de se reinventar em um ambiente onde o parcelamento em carnê, sua antiga força, perde terreno para o cartão de crédito e, mais recentemente, para o Pix. A estrutura física robusta, outrora um diferencial, torna-se um custo pesado em tempos de vendas online. A Marabraz, com sua forte presença no setor de móveis, sente o peso da desaceleração econômica e da intensa competição, que exige constante investimento em preços, marketing e logística.
O ciclo se repete: empresas que crescem alavancadas em crédito e expansão agressiva se tornam vulneráveis quando a economia fraqueja. A necessidade de inovação é constante, e o varejo exige uma agilidade implacável. Aqueles que não conseguem ler as mudanças no mercado, modernizar suas operações, ou que se endividam excessivamente, acabam sucumbindo, independentemente do tamanho de seu legado. As histórias de Mappin e Mesbla servem como um alerta para as gigantes de hoje: no varejo, a sobrevivência é um privilégio conquistado dia após dia, em uma batalha contínua contra a obsolescência e as intempéries econômicas.
Por Marcos Puntel