Um embate de grandes proporções se desenha no Congresso Nacional em torno da exportação de animais vivos. A deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR) apresentou um projeto de lei que visa proibir essa prática no Brasil, medida que rapidamente suscitou forte oposição da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), a bancada ruralista. O cerne da questão reside na delicada balança entre os impactos econômicos para um dos maiores produtores de proteína animal do mundo e as crescentes preocupações com o bem-estar animal.

A proposta de Gleisi Hoffmann, ainda em fase inicial de tramitação, argumenta que a exportação de animais vivos submete os bichos a condições extremas e desumanas durante as longas viagens marítimas. A deputada cita relatórios e denúncias de maus-tratos, estresse, ferimentos e até mortes de animais em decorrência de superlotação, falta de ventilação adequada, alimentação insuficiente e ausência de assistência veterinária a bordo dos navios. Para os defensores da medida, a proibição é uma questão ética e moral que o Brasil, como um dos líderes globais no setor, não pode mais ignorar. Eles apontam para uma tendência mundial de restrição ou proibição dessa prática em diversos países, como forma de alinhar a produção à responsabilidade social e ambiental.

Por outro lado, a Frente Parlamentar da Agropecuária reagiu de forma veemente. Representantes da FPA afirmam que a proibição traria graves prejuízos econômicos ao agronegócio brasileiro, setor responsável por uma parcela significativa do Produto Interno Bruto (PIB) e pela geração de milhões de empregos. A exportação de animais vivos, especialmente de bovinos e ovinos, é um nicho de mercado importante, que muitas vezes atende a demandas específicas de países importadores por carne fresca ou para abate local segundo rituais religiosos. A FPA argumenta que o Brasil já possui regulamentações rigorosas do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e segue padrões internacionais de bem-estar animal para o transporte. A perda desse mercado representaria não apenas a diminuição da receita para produtores e exportadores, mas também um impacto negativo na balança comercial do país e na competitividade do setor.

A tensão entre as duas visões é palpável. De um lado, ambientalistas, defensores dos direitos dos animais e parte da sociedade civil clamam por um tratamento mais digno e ético aos animais, sugerindo que o abate deve ocorrer no país de origem, com exportação apenas da carne já processada. Do outro, pecuaristas, exportadores e a bancada ruralista defendem a manutenção de uma atividade econômica que consideram legítima, regulamentada e vital para a economia nacional, argumentando que os custos de adaptação ou a perda total desse mercado seriam insustentáveis.

O projeto de lei de Gleisi Hoffmann promete uma tramitação acalorada no Congresso, com intensos debates nas comissões e no plenário. O resultado dessa disputa definirá não apenas o futuro de uma importante cadeia produtiva, mas também o patamar em que o Brasil se posicionará no cenário global em termos de bem-estar animal e desenvolvimento sustentável.

Por Marcos Puntel

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br

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