Durante a presidência de Donald Trump nos Estados Unidos, enquanto diversas nações buscavam canais de diálogo e negociação estratégica para seus interesses, o Brasil escolheu um caminho distinto: o do embate político e da afinidade ideológica nem sempre traduzida em ganhos concretos, resultando na perda de valiosas oportunidades econômicas. A abordagem brasileira, marcada por uma retórica alinhada ao governo americano, privilegiou a manifestação de apoio e a identificação ideológica em detrimento de uma diplomacia mais pragmática e focada em resultados comerciais e investimentos.
A gestão brasileira da época, influenciada por uma visão de mundo nacionalista e conservadora, viu na figura de Trump um espelho de seus próprios valores. Essa proximidade, contudo, manifestou-se mais em gestos de solidariedade política e menos em uma agenda concreta de barganha por vantagens comerciais ou investimentos diretos que poderiam impulsionar a economia nacional. Enquanto a Casa Branca de Trump era conhecida por sua disposição em renegociar acordos e impor tarifas, também abria portas para aqueles que soubessem navegar sua política de “America First” com propostas de valor mútuo.
Contrastando com países que, mesmo com profundas divergências ideológicas, souberam explorar a imprevisibilidade da política externa trumpista para garantir acordos comerciais favoráveis, acesso a mercados ou apoio em pautas específicas, o Brasil pareceu priorizar o alinhamento retórico. Nações como a China e a União Europeia, por exemplo, apesar das tensões e sanções, mantiveram mesas de negociação ativas, defendendo seus setores e buscando mitigar os impactos negativos, ou até mesmo capitalizar sobre a nova dinâmica global.
Entre as oportunidades potencialmente desperdiçadas pelo Brasil, destacam-se a chance de negociar cotas de exportação mais vantajosas para produtos agrícolas, atrair investimentos estratégicos em infraestrutura ou tecnologia com condições preferenciais, ou até mesmo fortalecer uma posição conjunta em fóruns internacionais que poderiam beneficiar diretamente a economia brasileira. A falta de um plano de ação claro para traduzir a boa vontade política em ganhos econômicos tangíveis deixou o país em desvantagem comparativa.
Para analistas de política externa, a estratégia brasileira careceu de um cálculo frio dos interesses nacionais. “Havia um vácuo no palco global que Trump, com sua agenda ‘America First’, estava disposto a preencher com quem se mostrasse mais flexível e estrategista, independentemente da ideologia. O Brasil falhou em reconhecer isso, confundindo afinidade pessoal com pragmatismo diplomático”, aponta a Dra. Ana Paula Silveira, professora de Relações Internacionais. O resultado foi um período em que, embora houvesse uma retórica amigável entre os líderes, a pauta econômica bilateral não avançou significativamente, deixando o país em desvantagem frente a concorrentes que souberam separar a política da economia em suas mesas de negociação.
Por Marcos Puntel