A rivalidade pelo mercado de etanol intensifica-se globalmente, colocando Brasil e Estados Unidos em lados opostos de uma complexa batalha comercial que envolve barreiras tarifárias, subsídios e visões estratégicas distintas para o futuro dos combustíveis renováveis. A contenda, enraizada na proteção de interesses domésticos e na busca por liderança energética, molda as políticas de comércio e as perspectivas para a descarbonização da economia mundial.
O Brasil, pioneiro na produção de etanol em larga escala a partir da cana-de-açúcar, defende abertamente a livre concorrência e o reconhecimento da superioridade ambiental e energética de seu produto. O etanol brasileiro é amplamente elogiado por seu balanço energético favorável – a relação entre a energia gerada e a energia consumida em sua produção – e por sua significativa redução de emissões de gases de efeito estufa. Para o agronegócio nacional e a indústria sucroenergética, o acesso desimpedido a mercados globais, especialmente ao estadunidense, é crucial para a sustentabilidade e expansão do setor, que se posiciona como um fornecedor-chave para a transição energética global.
Do outro lado, os Estados Unidos, o maior produtor mundial de etanol, predominantemente derivado do milho, frequentemente erguem barreiras para proteger sua indústria doméstica. As políticas protecionistas americanas, que já incluíram altas tarifas de importação e um complexo sistema de subsídios, visam garantir a demanda interna pelo etanol de milho, apoiar o setor agrícola local e promover a independência energética do país. Embora a preocupação ambiental esteja presente, a matriz de produção americana enfrenta questionamentos sobre seu balanço energético e o impacto da monocultura de milho.
A história dessa disputa é marcada por ciclos de abertura e fechamento de mercado. Por anos, o etanol brasileiro enfrentou uma tarifa de US$ 0,54 por galão para entrar nos EUA, uma medida que limitava drasticamente sua competitividade. Embora essa tarifa específica tenha sido eliminada em 2011, outras barreiras e mecanismos de proteção, como cotas e exigências de crédito de carbono específicas, continuam a ser implementadas, dificultando o fluxo do etanol de cana. As negociações comerciais bilaterais e fóruns internacionais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC), são palcos frequentes para as tentativas brasileiras de flexibilizar o acesso ao mercado americano, enfrentando a resistência de um lobby agrícola estadunidense poderoso.
No horizonte dos combustíveis renováveis, a polarização entre as duas potências é um fator determinante. Enquanto o mundo busca reduzir sua dependência de combustíveis fósseis, o etanol se apresenta como uma alternativa viável e de menor impacto ambiental. A competição entre o etanol de cana e o de milho não é apenas uma questão de preço ou eficiência, mas também de qual modelo energético prevalecerá na corrida contra as mudanças climáticas. A capacidade de ambos os países em encontrar um terreno comum para o comércio e a colaboração em pesquisa e desenvolvimento, especialmente em biocombustíveis avançados, pode acelerar a transição global para uma economia de baixo carbono. Contudo, a persistência das barreiras tarifárias e a ausência de um consenso sobre padrões e créditos de carbono globais indicam que a batalha pelo domínio do mercado de etanol está longe de ter um desfecho.
Por Marcos Puntel