Em uma guinada estratégica em sua campanha, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sinalizou um reposicionamento em relação a duas das mais polêmicas obras de infraestrutura do país: a Ferrogrão e a BR-319. Anteriormente, o líder petista havia demonstrado ressalvas aos projetos, especialmente devido às preocupações ambientais e aos potenciais impactos na Amazônia. Agora, em busca de votos e de um diálogo mais amplo com setores produtivos, Lula afirma que, se eleito, seu governo empenhará esforços para “destravar” e viabilizar as construções.

A mudança de discurso é percebida como um movimento para angariar apoio de segmentos do agronegócio e da logística, que veem na Ferrogrão e na pavimentação da BR-319 soluções cruciais para o escoamento da produção e a integração regional. Ambos os projetos são símbolos de um debate acalorado entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental, e sua paralisação ou lento avanço é um espinho na garganta de diversos atores políticos e empresariais.

A Ferrogrão, uma ferrovia projetada para ligar Sinop (MT) a Miritituba (PA), é considerada fundamental para o transporte de grãos do Centro-Oeste brasileiro até os portos fluviais da Bacia Amazônica, de onde seguiriam para exportação. A obra, no entanto, encontra-se paralisada por decisão judicial do Supremo Tribunal Federal (STF) devido a questionamentos sobre sua legalidade e o impacto em terras indígenas e unidades de conservação. Sua promessa de destravamento é um aceno direto ao potente setor do agronegócio.

Similarmente, a BR-319, que liga Porto Velho (RO) a Manaus (AM), é vista como a única ligação terrestre da capital amazonense com o restante do país. Há décadas, a pavimentação de trechos não asfaltados da rodovia é uma demanda constante da população e da indústria de Manaus, que sofrem com o isolamento logístico. Contudo, o projeto é duramente criticado por ambientalistas que apontam o risco de aumento significativo do desmatamento na região, abrindo novas frentes de ocupação irregular na Floresta Amazônica. Os entraves no licenciamento ambiental, liderados pelo Ibama, têm sido o principal obstáculo à sua conclusão.

Ao prometer a retomada de ambas as obras, Lula tenta demonstrar uma postura de conciliação entre as demandas por crescimento econômico e as preocupações com a sustentabilidade. A estratégia visa a reposicionar o candidato em um espectro político mais amplo, buscando votos em estados do Norte e Centro-Oeste, onde o desenvolvimento de infraestrutura é pauta prioritária. No entanto, o desafio de destravar esses projetos é complexo e envolve não apenas vontade política, mas também a superação de barreiras legais, ambientais e de financiamento que historicamente têm emperrado as obras. A concretização de tal promessa exigiria um árduo trabalho de articulação política e de negociação com órgãos de controle e movimentos sociais.

Por Marcos Puntel

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br

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