A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) intensificou as discussões sobre uma proposta de instrução normativa para regulamentar procedimentos e requisitos técnicos de medicamentos da classe dos agonistas do receptor GLP-1, popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras. A medida visa combater o crescente uso indiscriminado e o mercado ilegal desses fármacos, que incluem princípios ativos como semaglutida, tirzepatida e liraglutida, e que atualmente só podem ser adquiridos mediante receita médica.
A popularização desses medicamentos tem gerado preocupações com a saúde pública devido à proliferação de versões manipuladas sem autorização e ao comércio ilegal. Em resposta, a Anvisa tem implementado uma série de ações para coibir essas práticas, incluindo a criação de grupos de trabalho dedicados ao controle sanitário e à segurança dos pacientes.
Recentemente, em uma iniciativa conjunta, a Anvisa, o Conselho Federal de Medicina (CFM), o Conselho Federal de Odontologia (CFO) e o Conselho Federal de Farmácia (CFF) assinaram uma carta de intenção. O objetivo é promover o uso racional e seguro das canetas emagrecedoras, prevenindo riscos sanitários associados a produtos e práticas irregulares e zelando pela saúde da população. A agência informou que a parceria propõe uma atuação baseada na troca de informações, alinhamento técnico e ações educativas.
Em entrevista à Agência Brasil, o presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), Neuton Dornelas, reconheceu o impacto revolucionário das canetas emagrecedoras no tratamento da obesidade e do diabetes. “São medicamentos muito bons, eficazes, potentes, que abriram realmente um grande horizonte para o tratamento, sobretudo para pessoas que vivem com obesidade”, afirmou. Ele destacou que esses fármacos oferecem uma promessa de tratamento a longo prazo com resultados significativos na perda de peso, controle da glicose e, crucialmente, na diminuição do risco cardiovascular.
No entanto, Dornelas expressou grande preocupação com o uso indiscriminado. Ele citou um levantamento da Anvisa que revelou a importação de mais de 100 quilos de insumos farmacêuticos para manipulação de canetas emagrecedoras apenas no segundo semestre de 2025, quantidade suficiente para aproximadamente 20 milhões de doses. Mais alarmante, 1,3 milhão de medicamentos foram apreendidos por algum grau de ilegalidade ou irregularidade, seja no transporte ou no armazenamento. “Isso é estarrecedor. É assustador. A Sbem já vem alertando há muito tempo sobre isso. Para que as pessoas não consumam medicamentos de fontes que não são legais, medicamentos que não são registrados. Isso é altamente preocupante”, enfatizou.
Diante do cenário, o presidente da Sbem defendeu medidas mais rigorosas. Ele apoiou a decisão da Anvisa de exigir a retenção de receitas nas farmácias e drogarias desde junho do ano passado, visando frear o consumo desenfreado vindo do mercado paralelo. Dornelas chegou a sugerir que a Anvisa considerasse o bloqueio temporário, por três meses a um ano, de qualquer manipulação dessas drogas injetáveis para obesidade, argumentando que a agência não possui estrutura para fiscalizar um volume tão grande de doses.
O médico explicou que as canetas emagrecedoras atuam em três frentes: controle da glicose, retardo do esvaziamento gástrico (promovendo saciedade prolongada) e atuação no cérebro para reduzir o apetite. Esses mecanismos resultam em menor ingestão de alimentos e perda de peso substancial, com a semaglutida alcançando média de 15% e a tirzepatida podendo chegar a 22% a 25%, dependendo de fatores individuais e acompanhamento profissional.
Apesar dos benefícios, Dornelas alertou para os riscos. Os efeitos colaterais mais comuns são náuseas, vômitos e outros sintomas gastrointestinais. Contudo, o uso de fontes não seguras e medicamentos mal armazenados ou transportados eleva significativamente os riscos. A Anvisa já registra efeitos colaterais mais severos, como a pancreatite. O médico esclareceu que, embora rara, a pancreatite é uma doença frequente no Brasil e o uso das canetas pode aumentar o risco para algumas pessoas, devido ao retardo do esvaziamento gástrico que pode facilitar a formação de cálculos na vesícula biliar.
Para garantir a segurança, o presidente da Sbem descreveu quatro pilares fundamentais: utilizar um produto seguro e legal, com registro no Brasil; ter prescrição e acompanhamento de um médico registrado; adquirir o medicamento em farmácias e drogarias seguras; e usar as doses corretas, seguindo orientação médica, jamais comprando em mercados paralelos. Ele ressaltou que nem todos sentem os efeitos colaterais e que a ausência deles não indica ineficácia da medicação. No entanto, náuseas intensas, vômitos e, principalmente, dor abdominal importante e persistente devem ser vistos como sinais de alerta e levam à suspeita de pancreatite.
Por Marcos Puntel