Os recentes bombardeios de Israel contra o Líbano resultaram em uma devastação generalizada da infraestrutura civil e de saúde do país, com um balanço alarmante de vítimas e acusações de violação do direito internacional humanitário. Em 45 dias de conflito, a ofensiva israelense causou a morte de 2.294 pessoas e feriu outras 7.500, incluindo 177 crianças mortas e 704 feridas, segundo dados provisórios do Ministério da Saúde libanês.

A infraestrutura de saúde foi particularmente atingida. O Ministério da Saúde libanês reportou que 129 unidades de saúde foram danificadas, resultando na morte de 100 profissionais de saúde e deixando 233 feridos. Além disso, 116 ambulâncias foram bombardeadas e seis hospitais precisaram ser fechados. O Escritório da Organização das Nações Unidas (ONU) de Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha) no Líbano classificou esses incidentes como uma “grave violação do direito internacional humanitário” que compromete seriamente o acesso da população aos serviços de saúde. A Organização Mundial da Saúde (OMS) também expressou preocupação com avisos para evacuar dois hospitais em Beirute.

A destruição estendeu-se para além dos serviços de saúde. O Conselho Nacional de Pesquisa Científica do Líbano (CNRS) calculou que 37.800 unidades habitacionais foram destruídas até 12 de abril, a maioria nos subúrbios da capital, Beirute. “Esses números destacam uma rápida intensificação da destruição, com uma proporção significativa dos danos cumulativos da guerra ocorrendo em um período muito curto”, afirma o CNRS. Estima-se ainda que, pelo menos, sete jornalistas foram alvos de ataques israelenses nesta fase da guerra.

Mesmo após o anúncio de um cessar-fogo de dez dias, negociado por Donald Trump e atribuído pelo Irã e Hezbollah à união do “Eixo da Resistência”, o Líbano não encontrou alívio imediato. No primeiro dia do cessar-fogo, Israel lançou um ataque massivo contra Beirute, em especial contra os subúrbios densamente povoados e áreas centrais da capital, causando a morte de mais de 300 pessoas em cerca de 10 minutos de bombardeios. O jornalista e especialista em geopolítica Anwar Assi, que conhece as regiões bombardeadas em Beirute, destacou à Agência Brasil que são áreas civis. “Essa área é 100% civil. Mesmo os escritórios do Hezbollah são escritórios civis. Ou seja, pela lei internacional, não podem ser atacados. O subúrbio de Beirute não é uma área militarizada. Não tinha porquê bombardear aquelas áreas”, afirmou Assi, que tem família no Líbano.

Ataques contra infraestruturas civis e de saúde são considerados crimes de guerra. Israel alega que unidades de saúde e outras infraestruturas civis eram usadas pelo Hezbollah, o que é questionado por organizações de direitos humanos e negado pela organização xiita. Assi refuta as alegações de Israel de que havia foguetes na região. “Isso dá para ver pelos prédios destruídos, que lá não tinha foguete. O único motivo dos ataques foi para forçar o deslocamento dos moradores e criar uma pressão em cima da sociedade libanesa”, explicou o especialista. Mais de 1,2 milhão de pessoas foram deslocadas em decorrência de ordens que abrangem cerca de 15% do país, segundo o Ocha. Para Tel Aviv, o objetivo seria criar milhares de deslocados que se voltassem contra o Hezbollah, mas Assi ressalta que “a maioria apoia a resistência. Mesmo os críticos do Hezbollah têm rejeitado uma guerra civil contra o grupo”. O presidente do Parlamento libanês, Nabih Berri, reafirmou que a unidade nacional e a paz civil são “uma linha vermelha” que não deve ser cruzada, servindo miná-las aos objetivos de Israel.

A operação israelense no sul do Líbano, conforme o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, busca criar uma zona despovoada até o Rio Litani, a cerca de 30 quilômetros da fronteira. O deslocamento forçado de população civil é também considerado um crime de guerra. Em março, o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, declarou que as milhares de pessoas que fugiram do sul do Líbano não teriam permissão para retornar às suas casas ao sul do Rio Litani. No último dia antes do cessar-fogo, Israel bombardeou a Ponte de Qasmiyeh, a última que restava sobre o Rio Litani, isolando a região sul do resto do país e impedindo a conexão entre as cidades de Tiro e Sidon. Uma ponte provisória foi construída para permitir o retorno dos moradores.

O libanês-brasileiro Hussein Melhem, de 45 anos, é um dos muitos afetados. Morador de Tiro (Tyre), ele e sua família se deslocaram para a região metropolitana de Beirute e agora enfrentam incertezas sobre o retorno. “Quero voltar esta semana, mas tem que diminuir a fila um pouco porque está uma luta para voltar ao sul, tem muita gente”, disse, expressando dúvidas sobre a duração da trégua. O especialista Anwar Assi vai além, afirmando que as ações de Israel no sul do Líbano configuram uma limpeza étnica para expulsar os moradores e tomar esses territórios. “O objetivo principal da guerra é a expulsão das pessoas do sul do Líbano. Por isso que eles destruíram escolas, hospitais, prédios do governo e todas as unidades que poderiam dar suporte ao retorno dos civis. Eles destruíram justamente para que essas pessoas que retornassem às suas cidades não encontrassem nenhum tipo de apoio”, concluiu Assi, pintando um quadro sombrio para o futuro da região.

Por Marcos Puntel

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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