Às vésperas da aguardada abertura da alta temporada de subidas ao cume do Everest (8.848 metros de altitude), no Nepal, a montanha mais alta do mundo é palco de graves denúncias que abalam sua reputação e a segurança dos montanhistas. Informações que circulam globalmente apontam para um suposto esquema de envenenamento de escaladores por seus guias, em conluio com empresas de resgate aéreo, com o objetivo de fraudar seguradoras. Estima-se que a trama fraudulenta já teria movimentado cerca de US$ 20 milhões (aproximadamente R$ 103 milhões).
As acusações sugerem que guias estariam deliberadamente comprometendo a saúde dos alpinistas para simular emergências médicas e acionar resgates caríssimos, cujos custos seriam então reembolsados pelas seguradoras. Tal prática desonesta não apenas coloca em risco a vida de quem busca o desafio do cume, mas também explora a vulnerabilidade inerente à “zona da morte”, onde cada decisão e cada minuto de exposição podem ser fatais.
Paralelamente a essas graves denúncias, uma longa reportagem da publicação especializada Climbing Magazine trouxe à tona outra controvérsia: a possível criação de uma taxa especial pelo governo nepalês. Essa medida permitiria a escaladores endinheirados e impacientes ter prioridade na saída dos acampamentos, fugindo assim das longas e perigosas filas que se formam anualmente na reta final do Hillary Step.
As imagens de aglomerações de cidadãos encapuzados na “zona da morte”, onde o ar é tão rarefeito que até o pensamento sacrifica energia vital, são um triste símbolo da comercialização e superpopulação do Everest. A espera para a maioria dos alpinistas, que se veem obrigados a parar e aguardar a vez, frequentemente para que outros tirem a “selfie” obrigatória para as redes sociais, pode agravar significativamente os riscos de exaustão, hipotermia e mal de altitude. A implementação de uma “fila prioritária” não apenas perpetuaria a desigualdade, mas também poderia intensificar ainda mais os perigos para aqueles que não podem pagar pelo privilégio, transformando a jornada ao cume em um exercício ainda mais arriscado e, para muitos, injusto.
Por Marcos Puntel
Fonte: https://redir.folha.com.br