A disparada nos preços dos fertilizantes, impulsionada por tensões geopolíticas envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, acende um sinal de alerta no campo brasileiro. Contudo, especialistas indicam que o consumidor não deve sentir um impacto imediato no bolso, uma vez que o aumento dos combustíveis tende a pesar mais diretamente sobre os preços dos alimentos no curto prazo.

Isso se deve ao fato de que grande parte da safra atual já foi colhida ou está em fase final, com culturas como arroz, soja, e as primeiras safras de milho e feijão já tendo passado pelo período de adubação. “Nesses casos, o fertilizante já saiu do solo”, explica o pesquisador da FGV Agro, Felippe Serigati. Mesmo o café, que inicia a colheita este mês, foi plantado antes da recente escalada de preços.

Apesar da ausência de impacto imediato para o consumidor, o cenário preocupa os produtores rurais, especialmente ao planejar os próximos ciclos agrícolas. O Brasil é altamente dependente da importação de fertilizantes, com cerca de 85% do consumo nacional vindo do exterior. Insumos como ureia, potássio e fosfatos estão entre os mais utilizados, e uma parte significativa desse abastecimento provém de regiões sensíveis às tensões internacionais. O Oriente Médio, por exemplo, responde por cerca de 40% das exportações globais de ureia e 28% de amônia, impactando diretamente os preços internacionais.

Especialistas preveem que culturas mais dependentes de fertilizantes serão as primeiras a sentir o impacto. O milho, que é intensivo no uso de nitrogênio, é considerado um dos mais vulneráveis no curto prazo. Levantamento do Rabobank revela que o preço da ureia subiu 46% nas primeiras semanas do conflito, acumulando alta de 76% no ano. Arroz e trigo, que também demandam grandes volumes de fertilizantes nitrogenados, podem ter suas áreas de plantio reduzidas devido ao aumento dos custos. A soja, embora menos dependente de nitrogênio, exige quantidades significativas de fósforo e potássio, o que igualmente pressiona o custo de produção. A cana-de-açúcar, grande consumidora de potássio, pode ter sua produtividade e, consequentemente, a produção de açúcar e etanol afetadas.

Economistas enfatizam que o impacto nos preços dos alimentos não se manifestará imediatamente, mas sim no médio prazo, especialmente se houver redução da área plantada ou queda na produtividade. Fatores climáticos também se mostram decisivos; safras favorecidas por boas condições podem compensar os custos elevados dos insumos, ajudando a conter a inflação alimentar, como foi visto na safra recorde de 2023, que contribuiu para a desaceleração dos preços mesmo com fertilizantes mais caros.

Por ora, o principal catalisador da inflação permanece sendo o combustível. O diesel, em particular, exerce impacto direto tanto na produção agrícola quanto no transporte e na distribuição dos alimentos, influenciando de forma mais rápida os preços que chegam ao consumidor.

Assim, embora a elevação nos preços dos fertilizantes represente um risco considerável para o agronegócio, seus efeitos devem se manifestar de forma gradual e ainda dependerão da evolução do cenário internacional e das condições climáticas.

Por Marcos Puntel

Fonte: https://www.nortaomt.com.br

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