O Rio de Janeiro choca o Brasil mais uma vez. O afastamento do governador Cláudio Castro, anunciado em 4 de março de 2026, não é um incidente isolado, mas o mais recente capítulo de uma conturbada série que se desenrola na política fluminense desde o início dos anos 2000. O evento reacende o debate sobre um padrão crônico de instabilidade, marcado por uma longa e preocupante lista de governadores presos, destituídos ou investigados, transformando a cadeira do Palácio Guanabara em um epicentro de crises.
A história recente do estado é um testemunho dessa turbulência. Nomes como Rosinha Garotinho, Anthony Garotinho, Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, todos ex-chefes do executivo estadual, viram seus mandatos terminarem em meio a escândalos de corrupção ou foram alvo de processos de impeachment e prisões. Essa sucessão de interrupções e trocas de poder mina a confiança institucional e fragiliza a capacidade do estado em implementar e manter políticas públicas de longo prazo, essenciais para o desenvolvimento social e econômico.
Paralelamente à crise política, a economia fluminense tampouco serve como um bom exemplo de gestão. Apesar de ostentar o segundo maior Produto Interno Bruto (PIB) da federação, o estado foi arrastado à bancarrota por uma combinação letal de gestões consideradas perdulárias e a excessiva dependência das flutuações do preço do petróleo. A volatilidade do mercado internacional, aliada à ausência de uma política de diversificação econômica e de formação de reservas robustas, expôs a vulnerabilidade de um modelo que se mostrou insustentável. As consequências diretas são sentidas na precarização dos serviços públicos, nos atrasos de pagamentos a servidores e na retração de investimentos que poderiam impulsionar o crescimento.
O cenário atual de afastamento de Cláudio Castro, portanto, é mais do que um incidente político; ele é um sintoma da complexa intersecção entre má governança e fragilidade econômica que parece perseguir o Rio de Janeiro. A persistência desse ciclo vicioso levanta questões profundas sobre a capacidade do estado de romper com um passado de instabilidade e de traçar um caminho rumo a uma gestão mais transparente, eficaz e focada no bem-estar de sua população. A cada novo episódio, o desafio de reconstruir a credibilidade e a solidez institucional parece se tornar ainda maior.
Por Marcos Puntel
Fonte: https://redir.folha.com.br