Salvador, BA – Mais de meio século após a morte de seu pai, Maurício Grabois, a professora e ativista Victória Grabois, de 82 anos, ainda busca respostas, mas o Estado dá um passo significativo ao retificar a causa da morte de seu pai para “ação violenta do Estado”. O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) e a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos entregam nesta terça-feira (31), em cerimônia na Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador, 27 atestados de óbito retificados de vítimas da ditadura militar brasileira.
Entre os documentos, está o de Maurício Grabois, ex-deputado constituinte baiano, assassinado em 1973 na região da Serra do Araguaia por agentes do Estado, onde atuava na guerrilha contra o regime de exceção. Victória perdeu não apenas o pai, mas também o irmão, André, e o marido, Gilberto Olímpio, no mesmo ano e nas mesmas circunstâncias. “Não posso parar e faço tudo o que eu puder fazer para divulgar a memória e acabar com o silenciamento”, afirma Victória, uma das fundadoras do movimento Tortura Nunca Mais. Apesar de viver no Rio de Janeiro e não poder comparecer ao evento, ela exige que o Estado vá além da correção dos atestados, atuando na investigação completa do que ocorreu com as vítimas.
“Meu pai foi um grande homem. Ele deu o seu bem maior, a vida, e levou o seu filho junto, em prol da liberdade do Brasil e da democracia”, recorda Victória, que conviveu com Maurício até seus 29 anos. A provável data da morte de pai e filho foi 25 de dezembro de 1973. “Ele era um homem de princípios que me ensinou a ser uma pessoa digna. Essa é a lembrança que tenho do meu pai.” Os corpos de Maurício, André e Gilberto nunca foram entregues à família.
A luta por memória e justiça ecoou também na segunda-feira (30), quando o movimento Tortura Nunca Mais concedeu a medalha “Chico Mendes” a defensores dos direitos humanos, em sua 38ª edição. A honraria, criada como contraponto à medalha do Pacificador do Exército, lembrou o guerrilheiro Francisco Manuel Chaves e a socióloga Yara Yavelberg, ambos desaparecidos ou assassinados no Araguaia por agentes do Estado. A homenagem também se estendeu a mães que perderam filhos para a violência policial, como Solange de Oliveira, fundadora do Movimento Mães em Luto da Zona Leste, em São Paulo, conectando as violações do passado às do presente.
Victória Grabois ressalta ainda a importância dos últimos filmes brasileiros sobre a ditadura, que alcançaram o Oscar, para “furar a bolha” na sociedade e para que as escolas se interessassem mais pelo período de opressão. “A Guerrilha do Araguaia, por exemplo, passou a ser mais um fato histórico para as pessoas”, observa.
A presidente da comissão de mortos e desaparecidos, Eugênia Gonzaga, destaca a prioridade e a boa aceitação das retificações de certidões de óbito como a medida de reparação mais importante. A meta é realizar as 434 retificações pendentes, com entregas solenes e pedidos de desculpas oficiais. No entanto, Gonzaga critica veementemente a falta de abertura completa dos arquivos das Forças Armadas, que impede a obtenção de informações definitivas sobre as circunstâncias das mortes e os locais de sepultamento. Para ela, essa é uma falha persistente do sistema de justiça brasileiro.
Além do documento de Maurício Grabois, outras 26 certidões estão prontas para serem entregues, incluindo as de figuras históricas como Carlos Lamarca e Stuart Edgar Angel Jones, filho da estilista Zuzu Angel, cujas histórias foram amplamente divulgadas em filmes. Completam a lista Antônio Carlos Monteiro Teixeira, Célio Augusto Guedes, Dinaelza Santana Coqueiro, Dinalva Oliveira Teixeira, Eduardo Collier Filho, Esmeraldina Carvalho Cunha, Inocêncio Pereira Alves, Israel Tavares Roque, Joel Vasconcelos Santos, Jorge Leal Gonçalves Pereira, José Campos Barrêto, José Maurílio Patrício, Luiz Antônio Santa Barbara, Mário Alves de Souza Vieira, Nilda Carvalho Cunha, Otoniel Campos Barreto, Pedro Domiense de Oliveira, Péricles Gusmão Régis, Rosalindo Sousa, Sergio Landulfo Furtado, Uirassú de Assis Batista, Vandick Reidner Pereira Coqueiro, Vitorino Alves Moitinho e Walter Ribeiro Novaes.
Com a colaboração do repórter Gésio Passos, da Rádio Nacional
Por Marcos Puntel