A recente escalada da guerra no Irã e a possibilidade de fechamento do Estreito de Ormuz não apenas reeditam um novo choque do petróleo global, mas também expõem a frágil insegurança energética do Brasil. A avaliação é do ex-presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, que aponta a interrupção de projetos de ampliação do refino no país – consequências da Operação Lava Jato e da pressão de multinacionais do setor – como a raiz do problema. Gabrielli lançou, nesta semana, o livro “Economia do Hidrogênio: paradigma energético do futuro”, obra que aborda as perspectivas da transição energética.

Em entrevista à Agência Brasil, Gabrielli traçou um paralelo com os choques de 1973 e 1979, prevendo que o atual cenário terá efeitos estruturais profundos na comercialização do petróleo e, de forma ainda mais acentuada, no mercado de gás. Ele destacou a estratégia dos Estados Unidos de interferir no mercado global de óleo, mencionando as ações na Venezuela e no Irã como tentativas de controle. Com a instabilidade, o mapa do comércio internacional deve ser reconfigurado, com uma provável maior participação de Brasil, Canadá e Guiana na oferta de óleo bruto para nações como China e Índia. Gabrielli ressalta que o petróleo brasileiro, por exemplo, é o mais adequado para as maiores refinarias chinesas, consolidando o Brasil como terceiro maior exportador para o gigante asiático.

Contudo, sem capacidade de refino para atender plenamente à demanda interna, especialmente de diesel – cuja dependência externa varia entre 20% e 30% do mercado nacional – o Brasil permanece vulnerável às turbulências globais. O ex-presidente da Petrobras relembrou que, de 1980 a 2014, o país não construiu uma única nova refinaria, tendo inaugurado apenas a de Pernambuco em 2014, parte de um plano da Petrobras para cinco novas unidades, que foi barrado. A campanha histórica contra a expansão do refino nacional, impulsionada desde o início do século XX por empresas como Exxon e Shell, que controlavam a distribuição, foi um fator persistente nesse cenário.

A situação foi agravada a partir do governo Temer, quando quase 300 importadores de derivados foram autorizados no Brasil. Naquele período e durante o governo Bolsonaro, as refinarias da Petrobras operaram com uma carga reduzida, chegando a 50% de sua capacidade, abrindo espaço para esse mercado. Embora o governo Lula tenha elevado a operação das refinarias para até 93% da capacidade em 2023, a demanda interna ainda não é totalmente suprida. Os importadores, que deveriam equilibrar o mercado, operam de forma especulativa, importando apenas quando o preço internacional é inferior ao doméstico, o que frequentemente exige um aumento do preço nacional para justificar a importação.

O novo choque do petróleo também ressoa na transição energética. Gabrielli adverte que é inviável abrir mão imediatamente dos combustíveis fósseis, citando o exemplo de Cuba, que definha por estar impedida de recebê-los. Embora a alta dos preços possa gerar uma contração inicial da demanda e uma busca por mais petróleo, a médio prazo, esse novo choque deve impulsionar e acelerar a transição energética para fontes mais limpas.

Nesse contexto, o hidrogênio verde emerge como uma promessa para o futuro. O livro de Gabrielli explora essa molécula como um paradigma energético, capaz de descarbonizar setores como a indústria siderúrgica, o cimento, o transporte pesado e a aviação. Para sua viabilização, no entanto, é crucial a criação de um novo mercado, além do uso atual em refinarias e fertilizantes. Apesar de sua complexidade de transporte – exigindo produção próxima ao consumo – e da concorrência com biocombustíveis, o hidrogênio verde já se mostra viável em algumas regiões. Analistas preveem que ele poderá dominar o mercado de combustível por volta de 2035, mas para que isso se concretize, Gabrielli enfatiza que as decisões políticas e de investimento precisam ser tomadas agora.

Por Marcos Puntel

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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