O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou nesta quinta-feira (26) que a instituição necessita de mais tempo para compreender a extensão dos impactos da guerra no Oriente Médio sobre a inflação e o crescimento da economia brasileira. Segundo Galípolo, a política monetária conservadora e contracionista adotada pelo BC nos últimos anos posicionou o país em uma condição mais favorável para enfrentar um cenário de choque de oferta provocado pelo conflito.
Durante entrevista coletiva em Brasília, após a divulgação do Relatório de Política Monetária, Galípolo ressaltou a importância da “parcimônia, serenidade e conservadorismo” do Banco Central, que concede à autarquia a capacidade de aguardar para entender os desdobramentos do conflito. O atual choque de oferta, originado pelo bloqueio do Estreito de Ormuz, após ataques dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, tem impulsionado a alta nos preços do petróleo e seus derivados globalmente. Inicialmente, o diagnóstico apontava para um choque de oferta de ordem mais logística, decorrente de um estrangulamento.
Contudo, a interpretação tem evoluído. O presidente do BC indicou que, embora ainda haja muita incerteza, a sinalização de bancos centrais ao redor do mundo aponta para um impacto de redução no crescimento econômico e aumento da inflação. “Parece que vem ganhando uma interpretação de que hoje esse é um choque de oferta, que não afeta mais simplesmente uma questão logística, relativa a fechar o estreito de Ormuz, mas que afeta logística e capacidade produtiva também”, acrescentou Galípolo. Ele citou precedentes como a pandemia de covid-19, a guerra da Ucrânia e a guerra tarifária promovida pelos Estados Unidos, momentos nos quais choques de oferta resultaram em inflação crescente e crescimento econômico em queda.
Neste cenário de incerteza, o Banco Central manteve sua projeção de crescimento da economia brasileira em 1,6% para 2026, referente ao primeiro trimestre deste ano, conforme o Relatório de Política Monetária divulgado nesta quinta-feira. O dado, idêntico ao apresentado no relatório de dezembro, vem acompanhado da ressalva de “maior incerteza” devido aos potenciais efeitos do conflito no Oriente Médio.
O relatório do BC adverte que, se prolongado, o conflito deve gerar impactos predominantes no Brasil e no exterior, consistentes com um choque negativo de oferta, elevando a inflação e reduzindo o crescimento. No entanto, o documento também aponta que alguns setores da economia brasileira, especialmente o petrolífero, poderão se beneficiar da situação.
Por Marcos Puntel