Mais de 80 organizações de direitos humanos e de defesa do esporte pediram formalmente ao Comitê Olímpico Internacional (COI) que abandone seus planos de introduzir testes genéticos universais de sexo para atletas femininas e de impor uma proibição geral a competidores transgêneros e intersexuais. O apelo, divulgado nesta quarta-feira (18 de março de 2026), reflete uma crescente preocupação global com a dignidade, privacidade e inclusão de atletas que não se encaixam em categorias binárias de sexo.
A carta conjunta enviada ao COI critica veementemente as propostas em discussão, argumentando que elas são cientificamente infundadas, profundamente discriminatórias e violam os direitos humanos e a privacidade de atletas femininas. Segundo um porta-voz de uma das entidades signatárias, que preferiu não ser identificado devido à delicadeza do tema, a intenção de banir transgêneros e intersexuais é um retrocesso inaceitável para o esporte global e para os valores olímpicos de inclusão e respeito.
A questão da elegibilidade de atletas femininas com variações de desenvolvimento sexual (VDS) e de atletas transgêneros tem sido um ponto de controvérsia no esporte por anos. O COI tem sido criticado por suas diretrizes passadas, que frequentemente resultaram em exames invasivos e humilhantes, especialmente para atletas de países em desenvolvimento. Casos notórios, como o da corredora sul-africana Caster Semenya, ilustram as complexidades e o sofrimento causados por essas políticas, que muitas vezes excluem atletas com base em características biológicas naturais.
Embora o COI argumente que tais medidas visam garantir a “fair play” e a integridade da competição feminina, os grupos contestam que as propostas atuais excedem os limites da ética e da ciência. Eles argumentam que a determinação do sexo biológico é multifacetada e não pode ser reduzida a um único teste genético, tampouco pode justificar a exclusão de indivíduos com base em suas identidades ou características biológicas. A carta enfatiza que o foco deveria estar na criação de ambientes esportivos seguros e inclusivos para todos, em vez de impor barreiras discriminatórias.
Os signatários da carta conjunta apelam para que o COI reavalie suas políticas com base em evidências científicas atualizadas, princípios de direitos humanos e um diálogo inclusivo com as comunidades afetadas. Eles exigem um modelo que priorize a saúde, a dignidade e a inclusão, em vez de recorrer a medidas que podem marginalizar ainda mais atletas vulneráveis. A pressão sobre o Comitê Olímpico Internacional aumenta à medida que se aproxima o ciclo de revisão das diretrizes de elegibilidade, e a comunidade esportiva global aguarda um posicionamento que defina o futuro da inclusão e do respeito à diversidade nos Jogos Olímpicos.
Por Marcos Puntel
Fonte: https://redir.folha.com.br