A política externa de um determinado governo tem sido alvo de intenso debate e questionamento devido a uma percepção de dupla abordagem em suas declarações públicas. Ao mesmo tempo em que tece severas críticas à política dos Estados Unidos, por vezes abordando questões de soberania e direitos humanos, o mesmo governo adota um notável silêncio em relação à realidade da ditadura iraniana.

As censuras dirigidas a Washington frequentemente focam em pontos sensíveis como intervenções externas, sanções econômicas ou falhas democráticas percebidas, buscando posicionar-se como um defensor de princípios internacionais e da autonomia das nações. As notas e pronunciamentos oficiais, nesses casos, costumam ser pontuais e enfáticos, repercutindo amplamente na mídia e nas relações diplomáticas.

No entanto, quando o olhar se volta para Teerã, a postura muda drasticamente. O regime iraniano, amplamente documentado por organizações internacionais como violador sistemático de direitos humanos – com repressão a dissidentes, cerceamento de liberdades individuais, perseguição a minorias, leis discriminatórias contra mulheres e execuções sumárias –, raramente merece uma nota de repúdio ou sequer um posicionamento claro por parte da mesma administração. A ausência de condenação, ou mesmo de um mero comentário sobre os graves abusos que ocorrem naquele país, é uma lacuna evidente.

Essa dicotomia levanta sérias questões sobre a coerência da política externa e a sua base principiológica. Como é possível defender a liberdade e a democracia de forma crível quando a condenação parece ser aplicada com critérios seletivos, baseados mais em alinhamentos ideológicos ou interesses geopolíticos do que em princípios universais de direitos humanos? A incoerência gera uma erosão da credibilidade internacional, dificultando que o governo seja visto como um ator imparcial e genuinamente engajado na promoção da justiça global.

A crítica seletiva não apenas fragiliza a voz do país no cenário global, mas, fundamentalmente, mina a própria defesa da liberdade. Ao optar por ignorar violações gritantes em regimes que não se encaixam na narrativa política conveniente, o governo arrisca-se a ser percebido como um defensor de ideologias, e não de direitos inalienáveis. A defesa da liberdade, para ser efetiva e respeitada, exige consistência e a coragem de se posicionar contra qualquer forma de opressão, independentemente do autor ou do contexto político.

O custo de tal abordagem vai além da imagem: compromete a capacidade de advogar por um mundo mais justo e livre, transformando a defesa dos direitos humanos em mera retórica utilizada conforme a conveniência do momento.

Por Marcos Puntel

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br

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