Os custos de escoamento da safra de soja de 2026, já elevados pelos gargalos logísticos no acesso aos portos do Arco Norte, via Miritituba (PA), recebem agora uma nova e severa pressão. A escalada do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã impulsionou o preço do petróleo no mercado internacional, sinalizando reajustes no valor do diesel e um encarecimento iminente do transporte rodoviário no Brasil.
Os ataques, iniciados no último sábado (28/2) de 2026, fizeram o barril do tipo Brent disparar cerca de 10%, superando os US$ 82 na manhã de segunda-feira (2/3). Essa valorização acende o alerta para possíveis reajustes no preço do diesel no mercado interno, um combustível que representa entre 35% e 50% do custo total do frete rodoviário no país. Fernando Bastiani, pesquisador da Esalq-Log, alerta que o aumento do petróleo pode elevar o preço do diesel, impactando diretamente o transporte e os custos de produção no campo. A situação se agrava por ocorrer no pico da demanda logística, com a colheita e o escoamento da soja em pleno vapor.
André Lavor, CEO e cofundador da Binatural, enfatiza que tensões em regiões produtoras de petróleo invariavelmente provocam reações imediatas nas cotações globais. No Brasil, país que ainda possui dependência parcial de importação de combustíveis, essa volatilidade internacional tende a ser rapidamente repassada às distribuidoras e transportadoras. “O repasse pode começar a ser sentido em dias, especialmente em períodos de maior demanda logística”, afirma Lavor. No entanto, Olivier Girard, diretor da Macroinfra Consultores, pondera que a velocidade desse reajuste também será influenciada pela política de preços da Petrobras, sujeita ao crivo do governo federal. Girard estima que o reflexo direto no frete pode ser percebido em até duas semanas, tempo necessário para que a cadeia de suprimentos absorva o impacto.
Um ponto de preocupação adicional é o Estreito de Ormuz, uma rota marítima crucial para o transporte global de petróleo e seus derivados. Qualquer restrição à passagem por essa via estratégica pode reduzir a oferta e intensificar ainda mais a pressão sobre os preços internacionais. Já há relatos de empresas de logística marítima suspendendo operações na região e aplicando sobretaxas de guerra, o que eleva também os custos do frete naval.
Com o transporte rodoviário sendo a espinha dorsal do escoamento de grãos no Brasil, a combinação de uma safra recorde em 2026, os gargalos logísticos persistentes e a iminente alta no preço do diesel pode apertar ainda mais as margens do produtor agrícola. A consequência direta será o potencial impacto no preço final dos alimentos para o consumidor nas próximas semanas.
Por Marcos Puntel
Fonte: https://www.nortaomt.com.br