O futuro da Usina Nuclear de Angra 3 será selado em 2026, quando o governo federal deverá tomar uma decisão definitiva sobre a continuidade ou não do projeto. A equação financeira é complexa: a conclusão da obra demandará um investimento estimado em R$ 24 bilhões, mas a alternativa de abandonar a usina em estágio avançado de construção poderá acarretar custos ainda maiores para os cofres públicos e, consequentemente, para o bolso do cidadão.

Em construção intermitente desde a década de 1980, e com retomadas e paralisações ao longo dos anos, Angra 3 já consumiu bilhões em investimentos. A usina, localizada em Angra dos Reis (RJ), está com cerca de 65% de suas obras civis concluídas. Caso seja finalizada, adicionaria 1.405 megawatts (MW) ao sistema elétrico nacional, contribuindo para a segurança energética e a diversificação da matriz, especialmente em momentos de crise hídrica, quando as termelétricas a combustível fóssil são acionadas a custos mais elevados. Os R$ 24 bilhões necessários para sua conclusão abrangem a finalização da infraestrutura, instalação de equipamentos, licenciamentos e o combustível nuclear inicial.

Por outro lado, a opção de descontinuar o projeto, embora à primeira vista pareça poupar o investimento adicional, na prática resultaria em um prejuízo ainda mais significativo. Os cerca de R$ 10 bilhões já aplicados seriam considerados “custo afundado” (sunk cost), ou seja, um capital irrecuperável. A isso se somariam os custos de desmobilização segura da estrutura já construída, incluindo possíveis desmantelamentos, licenciamentos ambientais para a área e, potencialmente, multas e indenizações decorrentes de contratos com fornecedores e parceiros internacionais. Estima-se que esses encargos adicionais elevariam o valor total do prejuízo, superando o montante necessário para a conclusão da usina.

O impacto no consumidor é inevitável, qualquer que seja a escolha. Se a usina for concluída, a incorporação do novo investimento na tarifa de energia elétrica é uma possibilidade, embora a longo prazo possa haver uma estabilização ou até redução de custos operacionais do sistema como um todo pela adição de uma fonte de energia firme. Se Angra 3 for abandonada, os custos de desmobilização e o prejuízo do capital já aplicado seriam, em alguma medida, repassados à sociedade via tarifas ou através do orçamento público, que tem impacto direto nos impostos. Além disso, a necessidade de buscar fontes alternativas de energia para suprir a demanda que Angra 3 atenderia poderia levar a investimentos em outras plantas, potencialmente mais caras ou menos eficientes, pressionando ainda mais as contas de luz.

Atualmente, estudos de viabilidade técnica e econômica estão em andamento, sob a coordenação do Ministério de Minas e Energia e com o envolvimento da Eletronuclear, responsável pela construção e operação das usinas nucleares brasileiras. A decisão final em 2026 levará em conta não apenas os aspectos financeiros, mas também a estratégica energética do país, a demanda por eletricidade e os compromissos de sustentabilidade.

Por Marcos Puntel

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br

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