Não posso dizer que brinquei o Carnaval em Olinda este ano. Na verdade, fui brincado. Ou ainda, o Carnaval brincou comigo. Eu não entendi muito bem o que aconteceu. Ao contrário de anos recentes, quando vivi a maior festa popular do mundo em Salvador e Belo Horizonte, a folia pernambucana revelou-se um território sem mapas, uma experiência singular que desafiou toda a lógica pré-estabelecida.
Em capitais como Salvador e Belo Horizonte, a programação é tão exaustiva que desfrutar da festa – e há sempre muito a desfrutar – exige um esforço logístico quase militar. Blocos gigantes na Bahia, cortejos criativos em Minas Gerais, todos com horários marcados, percursos definidos e uma expectativa clara. Rio e São Paulo, por sua vez, também oferecem dezenas de blocos animadíssimos com hora marcada, e a folia geral ostenta uma certa organização, sempre bem-vinda, pelo menos no papel.
Em Olinda, no entanto, a narrativa foi outra. Longe de qualquer agenda pré-definida, a cidade histórica transformou-se em um imenso labirinto de cores, sons e sensações. Não havia um plano, um cronograma a seguir. A festa simplesmente acontecia, ou melhor, era você, o folião desavisado, quem era o objeto da festa. Era ser arrastado pela multidão, ser envolvido pela orquestra de frevo que surgia inesperadamente em uma esquina, ser parte de um mar humano que se movia por gravidade, sem um destino claro, apenas o fluxo incessante da celebração.
A ausência de um roteiro não significava falta de intensidade. Pelo contrário. A cada beco, a cada ladeira, uma nova manifestação irrompia: maracatus, bonecos gigantes, rodas de samba improvisadas, encontros casuais que se tornavam o ponto alto do dia. Era uma coreografia orgânica, um caos pulsante onde a única regra era a entrega total ao momento. Não se tratava de “ir a” um bloco ou “assistir” a um desfile, mas de ser o Carnaval, de se deixar absorver por uma energia que prescindia de planejamento para ser avassaladora.
Assim, a experiência em Olinda transcendeu a mera participação. Foi uma imersão completa, um evento que se impôs e redefiniu a própria noção de folia para quem a viveu sem bússola, sem mapa, apenas com a disposição de ser parte de algo maior e inexplicável. Talvez a verdadeira graça do Carnaval olindense esteja justamente em sua capacidade de desorganizar, de desorientar e, por fim, de brincar com quem se propõe a brincá-lo.
Por Marcos Puntel
Fonte: https://redir.folha.com.br