A frase ecoa em menus, aplicativos de entrega e balcões de self-service por todo o país: “Escolha sua proteína.” Tornou-se quase um mantra da conveniência, uma solução para a personalização rápida e a eficiência de cardápios pré-montados. No entanto, para muitos paladares, a expressão já soa como um sinal de alerta, um convite à monotonia culinária, uma redução da gastronomia a uma equação nutricional fria e sem alma.

O que se busca à mesa vai muito além de uma simples seleção de macronutrientes. O desejo primordial é por algo saboroso, uma refeição que evoque prazer e satisfação, que seja resultado de um preparo cuidadoso e não apenas uma montagem funcional. Queremos comida, no sentido mais amplo e caloroso da palavra; pratos que contem uma história, que tenham textura, aroma e, acima de tudo, um sabor marcante. E sim, frequentemente, essa busca nos leva ao coração de uma boa carne, suculenta, bem temperada, protagonista de um conjunto harmonioso.

A padronização que a frase “escolha sua proteína” impõe, paradoxalmente, acaba por limitar as opções reais e a experiência. Ela desconsidera a alquimia da cozinha, onde ingredientes se transformam e se complementam para criar algo novo e superior à soma de suas partes. É uma abordagem que desvaloriza a criatividade do chef e a complexidade do paladar humano, que anseia por mais do que um compartimento no prato.

Em um cenário onde a velocidade muitas vezes sacrifica o esmero, o anseio por uma refeição que seja verdadeiramente um deleite cresce. Que nos deem, então, mais opções, mais ousadia, mais sabor. Que a mesa retorne a ser um lugar de descobertas e prazeres autênticos, onde a comida seja celebrada em sua plenitude, sem ser relegada a uma mera categoria a ser selecionada. Afinal, comer é uma arte, não um formulário a ser preenchido.

Por Marcos Puntel

Fonte: https://redir.folha.com.br

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