Stanley Kubrick, em sua obra final, “De Olhos Bem Fechados”, lançada postumamente em 1999, orquestra uma complexa sinfonia de suspense psicológico que transcende a superfície de um drama conjugal. O filme é, na verdade, uma profunda e perturbadora análise da fragilidade da percepção de liberdade e controle de uma elite que se crê ilustrada e liberal, confrontada com as fronteiras invisíveis e impenetráveis do poder.

O Dr. Bill Harford, interpretado por Tom Cruise, personifica essa figura do “liberal ilustrado”. Médico bem-sucedido, casado com a bela Alice (Nicole Kidman), ele vive no conforto material e intelectual de uma Nova Iorque sofisticada. Bill acredita operar num mundo de regras claras, onde o mérito e a razão prevalecem. Sua ‘ilusão ilustrada’ é a de que a sociedade, embora complexa, é fundamentalmente governável por princípios éticos e transparentes, e que sua própria posição social lhe confere uma imunidade implícita aos aspectos mais sombrios da existência.

No entanto, a confissão de Alice sobre uma fantasia sexual intensa com um estranho – um desejo não concretizado, mas intensamente vivido – estilhaça a segurança de Bill e sua imagem idealizada de seu casamento e de si mesmo. Esse rompimento na intimidade doméstica é o catalisador que o empurra para uma jornada noturna de descoberta, ou melhor, de desnudamento da realidade. Impulsionado por uma mistura de ciúme, curiosidade e um desejo inconsciente de transgressão, Bill mergulha em um submundo oculto.

O que se segue é um mergulho em uma série de encontros bizarros e sugestivos, culminando no enigmático ritual orgiástico em uma mansão remota em Long Island. Ali, sob o véu de máscaras venezianas e a atmosfera de um segredo inviolável, ele testemunha a manifestação crua e desinibida de um poder que opera fora de qualquer convenção social ou legal que ele conhecia. As fronteiras invisíveis do poder, até então abstratas, tornam-se palpáveis: não são geográficas, mas sim sociais, morais e existenciais. Bill, em sua jornada, descobre que, apesar de seu status e sua educação, ele é um mero espectador, um intruso acidental.

Este poder é exercido por figuras que estão acima de qualquer escrutínio, cujas ações são protegidas pela cumplicidade, pelo medo e pela própria incredulidade da sociedade. A opulência e a impunidade se entrelaçam, revelando uma estrutura de dominação onde a vida humana pode ser um mero jogo, e os caprichos dos poderosos, lei. O “liberal ilustrado” se depara com a dura realidade de que sua razão e sua moralidade são impotentes diante de uma força que não se curva a elas, que sequer as reconhece. Suas tentativas de compreender ou confrontar esse mundo são recebidas com avisos velados e ameaças sutis, que o lembram de seu lugar e da impossibilidade de desvendar completamente seus mistérios.

Kubrick, com sua visão implacável, expõe a inocência, talvez perigosa, daquele que, por acreditar na transparência das instituições e na bondade inerente à civilização, fecha os olhos para as sombras que se agitam nos bastidores. O filme é um lembrete sombrio de que, por trás da fachada polida da sociedade moderna, existem hierarquias de poder que operam com suas próprias regras, inatingíveis para a maioria, inclusive para aqueles que se veem como parte da elite. “De Olhos Bem Fechados” não é apenas um filme sobre um pesadelo conjugal, mas um aviso perene sobre a ilusão de controle e a existência de domínios intocáveis onde o poder se manifesta em sua forma mais primária e perturbadora, mantendo a grande maioria, incluindo os auto-proclamados “ilustrados”, com os olhos bem fechados.

Por Marcos Puntel

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br

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