O cenário do acesso à internet no Brasil alcançou, em 2025, o ponto mais elevado da série histórica iniciada há uma década. Apesar da notável expansão, que reflete uma década de progressos significativos, o panorama digital do país permanece intrinsecamente marcado por profundas desigualdades. Fatores como renda, escolaridade, idade e local de moradia continuam a ser determinantes cruciais para a qualidade e a amplitude do acesso à rede. Uma pesquisa recente revela que 86% dos domicílios brasileiros estão agora conectados, um salto expressivo em comparação aos 51% registrados em 2015. Este percentual representa aproximadamente 157 milhões de usuários diretos, ou 163 milhões quando se consideram aplicativos que fornecem acesso indireto. Tal avanço é particularmente notável entre as famílias de menor renda, evidenciando uma democratização crescente, mas ainda incompleta, do universo digital.
Aumento do acesso e a persistência da lacuna social
O progresso no acesso à internet ao longo da última década é inegável e demonstra um esforço contínuo para digitalizar a população brasileira. No entanto, uma análise mais aprofundada revela que, embora o número de conexões tenha aumentado, a qualidade e a forma como a internet é utilizada ainda dependem fortemente da situação socioeconômica do indivíduo. A desigualdade, antes mais evidente na mera existência do acesso, agora se manifesta na tecnologia empregada, na multiplicidade de dispositivos e na capacidade de aproveitar plenamente os recursos da rede.
Expansão nas classes D e E e a predominância do celular
A expansão do acesso à internet é mais palpável entre as classes de menor renda. Em 2015, apenas 15% dos domicílios das classes D e E possuíam conexão. Em 2025, esse índice disparou para 73%, registrando um crescimento de cinco pontos percentuais apenas no último ano. Esse avanço substancial é um marco na inclusão digital, permitindo que milhões de famílias anteriormente desconectadas possam agora interagir com o ambiente online.
Contudo, as diferenças persistem e se aprofundam na modalidade de acesso. Embora o acesso por cabo ou fibra óptica tenha se consolidado como a principal tecnologia, sendo utilizada por 73% da população em geral, entre as classes D e E esse percentual cai para 60%. A desigualdade é ainda mais evidente no acesso geral: enquanto ele se aproxima da universalização nas classes A (99%) e B (95%), recua significativamente para 86% na classe C e para 73% nas classes D e E, onde cerca de um quarto da população ainda permanece à margem do universo online.
Um indicador marcante dessas limitações é o uso exclusivo do celular. Nas classes D e E, impressionantes 87% dos usuários acessam a internet apenas pelo telefone móvel. Essa dependência exclusiva restringe consideravelmente o tipo de conteúdo e de atividades que podem ser realizadas na rede, limitando a produtividade e a capacidade de engajamento com serviços mais complexos. Apesar dessas barreiras, a pesquisa aponta a consolidação do uso de serviços de governo eletrônico, especialmente para questões de saúde e para a emissão ou consulta de documentos, o que demonstra a relevância mesmo do acesso limitado.
Desigualdades geográficas, educacionais e geracionais
As disparidades no acesso e uso da internet extrapolam as classes sociais e se manifestam de forma contundente também no território, na formação educacional e na idade dos usuários. Em áreas rurais, por exemplo, o acesso à internet é significativamente menor, atingindo apenas 77% dos domicílios. Essa diferença territorial ressalta os desafios de infraestrutura e investimento em regiões menos densamente povoadas.
A formação educacional é outro fator preponderante. Entre pessoas com ensino superior, 98% utilizam a rede, um índice que garante quase total conectividade. No entanto, esse percentual recua para 91% entre aqueles com ensino médio e despenca para 74% entre quem possui apenas o ensino fundamental. Esses números sublinham a correlação entre escolaridade e capacidade de engajamento com o mundo digital, sugerindo que a educação formal prepara o indivíduo para navegar e aproveitar as oportunidades da internet.
A idade é igualmente um fator relevante para a inclusão digital. Mais de 90% das pessoas entre 10 e 44 anos estão conectadas, refletindo uma geração nativa digital ou que cresceu com a internet. Contudo, esse percentual diminui para 86% entre os maiores de 45 anos e atinge apenas 54% entre os que têm mais de 60 anos. Essa lacuna geracional aponta para a necessidade de programas de inclusão e letramento digital direcionados à população idosa.
Pela primeira vez, a pesquisa se debruçou sobre a qualidade do acesso móvel, um aspecto crucial diante da predominância do celular. Entre os usuários de pacotes de dados para celular, 55% afirmam que o plano é suficiente para suas necessidades. No entanto, 33% relatam uma frustrante redução na velocidade após o consumo do pacote, um percentual que sobe para 38% nas classes D e E. A necessidade de contratar pacotes adicionais afeta de 30% a 37% dos usuários, conforme a faixa de renda, evidenciando que o custo e a qualidade do serviço ainda são barreiras para uma experiência digital plena.
Comportamento digital: usos da rede e novas tendências
A forma como os brasileiros utilizam a internet evolui constantemente, com a comunicação mantendo sua primazia, mas com novas ferramentas e atividades ganhando espaço, como o Pix e as apostas online, e outras, como o streaming, apresentando oscilações.
Comunicação, Pix e o surgimento das apostas online
Em 2023 e 2024, a comunicação consolidou-se como a principal finalidade do uso da internet no Brasil. Segundo os dados levantados, 92% dos usuários enviaram mensagens instantâneas, 81% fizeram chamadas de vídeo e 80% utilizaram redes sociais. Esses números refletem a centralidade da internet como ferramenta de interação social e interpessoal. Por outro lado, houve uma leve queda no consumo de filmes e séries, de 77% em 2024 para 71% em 2025, assim como no compartilhamento de conteúdos, que passou de 67% para 62%.
O Pix, o sistema de pagamentos instantâneos brasileiro, fez sua estreia no levantamento e já se mostra amplamente consolidado, com uso por 75% da população conectada. Isso demonstra a rápida adoção de inovações financeiras digitais no país. Outra novidade na pesquisa foi a medição do uso da internet para apostas online. O resultado indica que 19% dos brasileiros utilizam a rede para esse fim, com uma predominância masculina notável. Entre os homens, 25% relataram algum tipo de aposta, contra percentuais menores entre as mulheres em todas as categorias analisadas.
Inteligência artificial e governo digital: acesso desigual
A pesquisa incluiu, pela primeira vez, o uso de ferramentas de inteligência artificial generativa, revelando que 32% dos brasileiros já utilizam esse tipo de tecnologia, índice que sobe para 35% entre os homens. O acesso a essas ferramentas, no entanto, varia de forma significativa conforme a escolaridade e a renda. Entre pessoas com ensino superior, 59% utilizam ferramentas de IA, contra 29% entre quem concluiu o ensino médio e apenas 17% entre aqueles com ensino fundamental, evidenciando uma clara disparidade no letramento digital avançado.
Por faixa de renda, o uso da IA alcança impressionantes 69% na classe A e 52% na classe B, enquanto nas classes C o percentual é de 32% e nas classes D e E, apenas 16%. A diferença também é geracional: 55% dos jovens de 16 a 24 anos usam IA, percentual que diminui progressivamente com a idade e chega a meros 6% entre pessoas com mais de 60 anos. Entre os usuários de IA, 84% a utilizam para fins pessoais. O uso para pesquisas ou trabalhos acadêmicos aparece em 53% dos casos, enquanto 50% relatam aplicação profissional. O uso no trabalho é mais frequente entre pessoas com ensino superior, das quais 69% afirmam utilizar a tecnologia para fins profissionais.
A plataforma gov.br, que centraliza serviços digitais do governo, mantém um alcance elevado no país, sendo acessada por 56% da população total. Contudo, assim como em outras áreas, há uma forte diferença entre classes sociais. Na classe A, 94% utilizam a plataforma, percentual que cai para 79% na classe B, 56% na C e apenas 35% nas classes D e E. Regionalmente, a média de uso varia entre 57% e 60%, mas no Nordeste recua para 48%, indicando desafios de inclusão digital em algumas regiões.
Conclusão
Os dados de 2025 pintam um quadro paradoxal do acesso à internet no Brasil: um avanço notável na conectividade geral, contrastando com a persistência de profundas desigualdades. Embora a digitalização tenha alcançado um patamar inédito, especialmente entre as classes de menor renda, a qualidade do acesso e a plena capacidade de usufruir dos recursos online continuam a ser privilégios definidos por fatores socioeconômicos, geográficos e educacionais. A renda emerge como um elemento decisivo, moldando não apenas quem está conectado, mas também como e com que eficácia a população brasileira interage com o universo digital, limitando o potencial transformador da internet para muitos cidadãos.
Perguntas frequentes
Qual é a taxa atual de acesso à internet nos domicílios brasileiros?
Em 2025, 86% dos domicílios brasileiros têm acesso à internet, representando aproximadamente 157 milhões de usuários diretos.
Como o acesso à internet evoluiu nas classes de menor renda?
Nas classes D e E, o acesso à internet cresceu de 15% em 2015 para 73% em 2025, um avanço significativo na última década.
Quais são as principais disparidades na qualidade do acesso à internet no Brasil?
As disparidades incluem menor acesso por fibra em classes D/E, predominância do uso exclusivo do celular (87% em D/E), menor conectividade em áreas rurais (77%), e lacunas relacionadas à escolaridade e idade, além de problemas com a velocidade dos pacotes de dados móveis.
Quais são os principais usos da internet no Brasil?
A comunicação é o principal uso (mensagens instantâneas, chamadas de vídeo, redes sociais). Pagamentos via Pix são utilizados por 75%, e as apostas online surgem com 19% de uso.
A inteligência artificial generativa é amplamente utilizada no Brasil?
32% dos brasileiros já utilizam IA generativa. No entanto, o uso é desigual, sendo muito maior entre pessoas com ensino superior (59%) e classes de renda mais alta (69% na classe A), e menor entre idosos.
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Fonte: https://totalnewsms.com.br