Em um evento marcante, a Academia Brasileira de Letras (ABL) no Rio de Janeiro foi palco da formatura da Universidade das Quebradas. A cerimônia, realizada no Teatro Raimundo Magalhães Jr, celebrou a conclusão de 46 novos escritores, muitos deles oriundos de áreas periféricas. A escritora Ana Maria Gonçalves, a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na ABL, abriu a solenidade com um discurso contundente, destacando a importância das periferias como fonte de inovação e transformação social no Brasil.
Entre os formandos, Ismael Queiroz Dias, 29 anos, escritor de Niterói que se identifica como indígena, negro e causasiano, expressou seu orgulho em representar seus ancestrais e a diversidade de sua história. Inicialmente receoso por já ser um escritor publicado, Ismael encontrou no curso um ambiente de aprendizado e companheirismo. Ele é autor da coletânea de contos “A Cidade Maravilhosa dos Milicianos: Compêndio Poético”, lançada em 2022.
Lady Victória Padilha, 23 anos, graduanda de Letras-Português na UFRJ e natural de Manaus, ressaltou como a Universidade das Quebradas leva a academia para pessoas com realidades distantes. Inspirada por sua paixão por livros, Lady decidiu escrever suas próprias histórias, explorando suas raízes do norte em seu conto “O Jovem Vendedor de Codajás”, incluído na coletânea da turma.
Rose de Souza Garcia, 60 anos, também ex-aluna de Letras da UFRJ, ingressou no curso após publicar seu primeiro conto. Ela reconheceu os desafios de integrar a arte em estruturas institucionais mais rígidas, mas enfatizou o valor da troca de experiências e do conhecimento das realidades de outros escritores.
A Universidade das Quebradas é um projeto de extensão da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), idealizado por Heloísa Teixeira e Numa Ciro, com o objetivo de formar novos escritores, principalmente de áreas periféricas do Rio. O curso, fruto de uma parceria entre a UFRJ, o Instituto Odeon e a ABL, oferece aulas semanais no prédio da academia, onde os alunos estudam obras de imortais como parte do currículo. Em 2025, a turma se aprofundou na obra de Ariano Suassuna, culminando no lançamento do livro “Suassuna Quebradeiro”, uma coletânea de contos e peças produzidas pelos formandos, disponível online.
Carlos Gradim, presidente do Instituto Odeon, enfatizou que o curso valoriza a bagagem e o talento dos alunos, buscando um diálogo entre o saber acadêmico e o conhecimento já presente nas comunidades de onde eles vêm.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br