O cenário político brasileiro de 1989, efervescente com as primeiras eleições presidenciais diretas após décadas de regime militar, foi um palco vibrante para embates ideológicos e rivalidades pessoais. Em meio a um campo vasto de candidatos que disputavam a atenção do eleitorado, Ronaldo Caiado emergiu como uma das vozes mais contundentes na autoproclamada defesa da direita. Com um discurso direto e, por vezes, virulento, ele não media palavras para se posicionar como o legítimo representante do conservadorismo nacional, buscando diferenciar-se de outros nomes que também flertavam com o espectro ideológico.
Foi nesse período de fervor eleitoral que Caiado travou uma de suas mais notáveis batalhas retóricas contra Fernando Collor de Mello, então um jovem e carismático governador de Alagoas que, poucos meses depois, ascenderia à presidência. Collor, com sua imagem de renovação e modernidade, tentava ocupar um espaço que Caiado considerava seu por direito: o da direita autêntica. Para Caiado, Fernando Collor não passava de um “almofadinha”, um termo pejorativo que buscava desqualificar o adversário, pintando-o como um diletante político, sem a profundidade ou a genuína convicção ideológica que ele, Caiado, alegava possuir em sua primeira campanha presidencial.
Essa retórica agressiva e a polarização ideológica eram marcas registradas da campanha de 1989, um reflexo do Brasil pós-redemocratização que buscava suas novas identidades políticas. Caiado, com raízes no agronegócio e na União Democrática Ruralista (UDR), personificava uma direita mais tradicional e combativa. Collor, por outro lado, capitalizava sobre o sentimento de novidade e o discurso anticorrupção, com um apelo que transcendia as divisões ideológicas mais rígidas. O embate entre ambos, embora ofuscado pelo resultado final que coroou Collor, simbolizou um momento crucial na formação da direita brasileira contemporânea, moldando estratégias e narrativas que ecoariam nas décadas seguintes. Aquele confronto ideológico inicial, carregado de adjetivos e posições firmes, ajudou a demarcar o terreno para futuras disputas e a definir os perfis dos políticos que, a partir dali, dominariam a cena nacional.
Por Marcos Puntel
04/11/2026 – 06h00
Fonte: https://redir.folha.com.br