Para milhões de cristãos ao redor do mundo, a Páscoa transcende a mera data no calendário litúrgico; ela representa o ápice de uma jornada de quarenta dias de reflexão e privação. A celebração marca, invariavelmente, o fim da Quaresma e, com ela, a permissão para o retorno de indulgências que foram deixadas de lado. É, em essência, o grande “está liberado comer muito de qualquer coisa” após um período de jejum e abstinência.
Durante a Quaresma, os praticantes são convidados a um tempo de recolhimento, oração e, muitas vezes, sacrifício alimentar. Carnes vermelhas são frequentemente evitadas, e outras restrições dietéticas são adotadas como forma de penitência e preparação para a ressurreição de Cristo. Esse período de purificação e introspecção, que busca emular o jejum de Jesus no deserto, culmina na Semana Santa, com a Paixão e Morte, para então explodir na alegria da Páscoa, a celebração da ressurreição e da vida nova.
É nesse contexto que o banquete pascal assume seu significado mais profundo. A mesa farta, repleta de pratos que antes eram restritos, torna-se um símbolo de renovação, vida nova e esperança. O tradicional cordeiro, que remete à tradição judaica e ao sacrifício, é um dos protagonistas, acompanhado por bacalhau em muitas culturas, pães especiais e, claro, uma profusão de doces e chocolates. Os ovos de Páscoa, coloridos e recheados, carregam a simbologia da fertilidade e do renascimento, transformando-se em um convite irrecusável à celebração da abundância e da doçura da vida.
Embora enraizada na fé cristã, a Páscoa transcendeu as barreiras religiosas, tornando-se também um momento de união familiar e celebração cultural, onde a troca de presentes e a gastronomia ocupam um lugar central. Mesmo para aqueles que não seguem os preceitos da Quaresma, a Páscoa é sinônimo de um feriado prolongado, de encontros e, inegavelmente, de mesas repletas de iguarias, onde o prazer de comer livremente é amplamente exercitado. O ato de compartilhar uma refeição abundante após um período de contenção reflete uma alegria coletiva e um espírito de renovação que cativam a todos, independentemente de suas convicções.
Assim, entre o sacro e o profano, a Páscoa permanece como um lembrete poderoso da renovação e da alegria que sucede o sacrifício, marcando o calendário não apenas como um feriado, mas como uma festividade onde a liberdade de desfrutar dos prazeres da mesa é um dos seus pilares mais saborosos e celebrados.
Por Marcos Puntel
(04/02/2026 – 17h00)
Fonte: https://redir.folha.com.br