A recente decisão do Comitê Olímpico Internacional (COI) de adotar o teste do gene SRY como critério de elegibilidade para atletas em provas femininas foi classificada como “excessivamente simplista” pelo próprio cientista responsável pela descoberta do gene. A medida, anunciada em 31 de março de 2026, reacende o debate sobre a complexa verificação de gênero no esporte de alto rendimento.
O gene SRY (sex-determining region Y) é conhecido por desempenhar um papel crucial no desenvolvimento de características masculinas. A intenção do COI ao implementá-lo é estabelecer um marcador genético objetivo, buscando clareza e justiça nas competições femininas. No entanto, a crítica vinda de uma fonte tão central à pesquisa do gene sublinha as preocupações de especialistas sobre a abordagem simplificada de uma realidade biológica que é, por natureza, multifacetada.
Para o pesquisador que fez a descoberta, a complexidade inerente à biologia do sexo humano vai muito além da presença ou ausência de um único gene. Casos de condições intersexo, variações hormonais naturais e a vasta diversidade genética entre indivíduos tornam a aplicação de um teste binário como o SRY insuficiente e, potencialmente, injusta ou discriminatória para atletas que podem não se encaixar em uma definição estrita, mas que se identificam e vivem como mulheres.
A história olímpica é marcada por diversas tentativas de verificação de gênero, desde exames físicos invasivos até testes cromossômicos, muitos dos quais foram abandonados devido à sua imprecisão e caráter antiético. A introdução do teste SRY pelo COI, portanto, é vista por muitos críticos como mais uma tentativa de reduzir uma realidade biológica complexa a um único fator, com o risco de excluir atletas legítimas.
A manifestação do descobridor do gene adiciona um peso significativo às preocupações já levantadas por especialistas em ética esportiva, biólogos e defensores dos direitos humanos. O desafio para o COI agora é conciliar a busca por um campo de jogo justo com a necessidade de políticas inclusivas e cientificamente robustas, que reconheçam a diversidade biológica e não restrinjam a identidade de gênero a um único marcador genético.
Por Marcos Puntel
Fonte: https://redir.folha.com.br