A dois anos da próxima grande safra de maçãs, produtores do Sul do Brasil já acendem o alerta sobre a crescente dificuldade de contratar mão de obra, especialmente beneficiários do programa Bolsa Família. O cenário para a colheita de 2026, vital para a economia de regiões como a Serra Gaúcha e o Planalto Catarinense, aponta para um vazio de trabalhadores que ameaça a sustentabilidade do setor.

A fruticultura de maçã, intensiva em mão de obra, demanda milhares de trabalhadores temporários durante o pico da colheita, entre janeiro e abril. Historicamente, essa força de trabalho era composta por pessoas de diversas regiões, incluindo muitas famílias que complementavam sua renda com os recursos do programa social. No entanto, o que se observa hoje é uma hesitação crescente por parte desses potenciais trabalhadores em aceitar empregos formais, mesmo que sazonais. Produtores relatam que a maior barreira é o receio, muitas vezes infundado, de perder o benefício do Bolsa Família ao ter um registro em carteira.

Representantes de associações de produtores de maçã têm levado a preocupação às esferas governamentais. Eles apontam que a desinformação sobre as regras de compatibilidade entre o emprego formal e a manutenção do benefício social é um dos principais entraves. Atualmente, a “regra de proteção” do Bolsa Família permite que famílias que aumentam sua renda por meio de um emprego formal permaneçam no programa por até 24 meses, recebendo 50% do valor do benefício, desde que a renda familiar per capita não exceda determinado limite. Contudo, a complexidade das normas e a falta de campanhas claras de comunicação contribuem para que a percepção de perda total do auxílio prevaleça.

Para muitos trabalhadores, o temor de ter o benefício cancelado, ainda que temporariamente, e a incerteza sobre a reintegração ao programa após o término do contrato sazonal, superam o incentivo de um salário formal e temporário. Soma-se a isso a natureza exigente do trabalho na colheita, que muitas vezes envolve deslocamento, moradia em alojamentos coletivos e esforço físico intenso, fatores que podem ser menos atrativos diante da segurança de uma renda fixa, mesmo que mínima, proporcionada pelo Bolsa Família.

O impacto dessa escassez de mão de obra vai além das fazendas. A cultura da maçã gera um ciclo econômico significativo nas cidades produtoras, movimentando comércio, serviços e toda uma cadeia logística. Sem trabalhadores suficientes, há risco real de perda de parte da safra, aumento dos custos de produção (que podem ser repassados ao consumidor ou corroer a margem do produtor) e, em última instância, a desaceleração econômica de regiões que dependem fortemente da atividade. Especialistas em assistência social e economia agrônoma defendem a necessidade urgente de programas-piloto e campanhas informativas direcionadas, que esclareçam as regras e incentivem a participação de beneficiários em trabalhos sazonais, garantindo a complementação de renda e a segurança alimentar do país. A expectativa é que o diálogo entre governo, produtores e as comunidades possa trazer soluções efetivas antes que a safra de 2026 se torne um período de perdas e não de colheita.

Por Marcos Puntel

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br

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