Atuar em cenários tipicamente masculinos ainda representa um desafio persistente para muitas mulheres, em diversas áreas. No universo do futebol, as barreiras se elevam, e a permanência exige uma determinação inabalável. Neste Mês da Mulher, a voz de atletas, narradoras e jovens promessas ecoa a resiliência e a vontade de vencer que sustentam a disposição diária em um esporte que lhes foi proibido por quase 40 anos. A realidade de 2022, com apenas 360 jogadoras profissionais e 17 árbitras registradas pela Confederação Brasileira de Futebol, ilustra a dimensão do caminho a ser trilhado.
A necessidade de um ambiente seguro é um ponto central na visão de Formiga, ex-jogadora e atualmente Diretora de Políticas de Futebol e de Promoção do Futebol Feminino no Ministério do Esporte. Detentora do recorde de sete Copas do Mundo disputadas, Formiga, que também foi duas vezes vice-campeã olímpica e uma vice-campeã mundial, além de campeã Pan-Americana, enfatiza a urgência de garantir proteção não apenas para as atletas de hoje, mas para todas as mulheres inseridas no esporte, independentemente de sua função. “Precisamos trazer segurança não só para essas atletas de hoje, mas para todas as meninas, mulheres, independentemente em que cargo estejam, seja como treinadora, árbitra, diretora”, afirma. Para ela, a formação de base é crucial. “Meninas tem até demais, talentos temos até demais, mas, enquanto não tivermos estrutura, vamos avançar pouco”, destaca, defendendo a consolidação de times femininos com foco na base em todos os estados, buscando um equilíbrio que hoje se concentra em São Paulo.
O sonho de Isadora Jardim, de 14 anos, meio-campista que disputa a categoria sub-15 pelo Corinthians e já foi convocada para a Seleção Brasileira da categoria, materializa essa busca por espaço. A jovem deixou sua cidade no Distrito Federal e se mudou para São Paulo, onde concilia treinos matinais e estudos. Apesar do momento desafiador, Isadora já enfrentou e superou comentários desanimadores. “Já ouvi muitos comentários do tipo ‘futebol não é para mulher’, ‘mulher não joga futebol’. E isso nunca é bom, mas aprendi a lhe dar com eles e a me tornar mais forte”, relata. Sua mensagem para outras meninas é de incentivo: “nunca desistam e continuem treinando”.
Em outra faceta do esporte, a narradora Luciana Zogaib, da EBC, destaca a persistente presença masculina na locução esportiva. “O rádio tem 100 anos, e só havia homens fazendo esse trabalho de locução. Há uma resistência muito grande em relação às mulheres. Culturalmente, o machismo no futebol é muito, muito forte”, observa. A presença feminina nas cabines, para ela, é vital para expandir o segmento. “Isso é fundamental para abrir esse mercado, para que os outros parceiros também vejam a necessidade de ter locutoras e, com isso, gerar oportunidades em outros locais.”
No âmbito institucional, a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) tem priorizado o futebol feminino em sua grade e integra as câmaras temáticas que preparam a Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2027, a ser sediada no Brasil. Em colaboração com o Ministério do Esporte, a EBC discute formas de apoiar e levar o futebol a regiões mais distantes do país. Recentemente, a secretária extraordinária para a Copa do Mundo, Juliana Agatte, reuniu-se com a diretoria da EBC para debater o legado social e esportivo da competição.
A visibilidade do esporte também está garantida através da iniciativa “Tela do Futebol Feminino” da TV Brasil, que pelo terceiro ano consecutivo transmite jogos da Série A1 do Campeonato Brasileiro Feminino, além de confrontos decisivos das Séries A2 e A3 a partir das semifinais, e as decisões das categorias de base Sub-17 e Sub-20. O foco é ampliar o alcance e o reconhecimento do futebol praticado por mulheres em todo o país, pavimentando o caminho para um futuro mais equitativo e promissor.
Por Marcos Puntel