Montevidéu, 18 de março de 2026, 08h00 – A capital uruguaia, Montevidéu, cativa seus visitantes e moradores com uma atmosfera singular, onde a linha entre o ontem e o hoje se dissolve em uma experiência de tempo fluida e envolvente. Longe do frenesi de outras metrópoles sul-americanas, a cidade pulsa num ritmo próprio, convidando à contemplação e à redescoberta de um modo de viver que parece resistir à urgência dos tempos modernos, sem contudo se desconectar deles.
Percorrer suas ruas é como folhear um álbum de fotografias históricas que, de repente, ganham vida e cor. A arquitetura é um testemunho eloquente dessa dualidade. Edifícios neoclássicos e art déco imponentes, muitos deles preservados com um charme melancólico, convivem lado a lado com grafites contemporâneos e fachadas revitalizadas que abrigam galerias de arte e cafés inovadores. Na Ciudad Vieja, o eco dos séculos passados ressoa nos adoquins e nas paredes espessas dos casarões, onde ainda hoje se encontram sebos, ateliês de artesãos e botecos tradicionais, ao lado de modernos bistrôs e lojas de design.
O cotidiano montevideano se desenrola com uma cadência que remete a épocas em que o tempo era menos tirano. As conversas nas mesas dos cafés históricos, como o Brasilero ou o Facal, não são apressadas. A tradicional sesta, embora não seja universal, ainda pauta o ritmo de muitos estabelecimentos, e o hábito de desfrutar um mate na beira da Rambla, observando o Rio da Prata, é um ritual diário que transcende gerações. A musicalidade do candombe, Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, irrompe espontaneamente em bairros como Palermo e Barrio Sur, conectando o presente a raízes africanas seculares.
Entretanto, Montevidéu está longe de ser uma cidade estagnada no passado. A mesma Rambla que convida à meditação é também palco para corredores, ciclistas e encontros de jovens. Bairros como Pocitos e Carrasco exibem uma modernidade discreta, com edifícios residenciais elegantes, centros comerciais e uma cena gastronômica que aposta na fusão de sabores e na valorização de produtos locais. A agenda cultural é vibrante, com teatros, cinemas e casas de show que trazem tanto espetáculos clássicos quanto as últimas tendências artísticas. A cidade é um centro universitário efervescente, atraindo estudantes e mentes inovadoras que contribuem para um dinamismo intelectual palpável.
Essa coexistência harmoniosa do antigo e do novo é o que confere a Montevidéu sua identidade única. É a capacidade de ser uma cidade que preserva a alma de outros tempos, com seus ritmos lentos, sua arquitetura nostálgica e sua profunda cultura de café e conversa, enquanto abraça, de forma autêntica e sem pressa, as conveniências e inovações do presente. É, em essência, um convite a desacelerar, a observar e a experimentar a vida em uma dimensão onde o tempo, curiosamente, parece ser ao mesmo tempo fugaz e eterno.
Por Marcos Puntel
Fonte: https://redir.folha.com.br