BEIJING, China — 15 de março de 2026, 6h00 – Ao longo do último meio século, a China orquestrou uma das mais espetaculares transformações econômicas da história, elevando centenas de milhões de pessoas da pobreza à prosperidade e acumulando uma riqueza sem precedentes. De uma nação outrora mergulhada na escassez, emergiu um titã econômico cuja capacidade de gerar capital e melhorar as condições de vida desafiou expectativas globais.

Agora, o gigante asiático enfrenta uma nova e talvez mais complexa etapa de sua jornada: como transmitir essa vasta riqueza acumulada para a próxima geração. A questão vai muito além da mera transferência de bens patrimoniais; ela toca o cerne da sustentabilidade econômica e social do país. A primeira geração de empreendedores, líderes e trabalhadores chineses foi impulsionada por uma fome inerente de construir, inovar e superar adversidades. Eles moldaram uma economia robusta com uma determinação implacável.

Contudo, os herdeiros dessa prosperidade nascem em um cenário de abundância. Essa mudança fundamental levanta preocupações críticas sobre a manutenção do dinamismo econômico chinês. Será que a ausência da mesma urgência e do mesmo espírito empreendedor na próxima geração poderia levar a uma estagnação? A complacência, um luxo que a geração anterior não podia se dar, surge como um risco silencioso.

A gestão dessa transição intergeracional também expõe desafios sociais profundos. A concentração de capital nas mãos de uma elite herdeira pode acentuar desigualdades, fomentando divisões sociais e minando a meritocracia que, em certa medida, impulsionou o crescimento anterior. O governo chinês terá a tarefa delicada de garantir que a riqueza não se torne um catalisador para a inércia, mas sim um motor para a inovação contínua e para o desenvolvimento de novas indústrias e oportunidades.

A forma como essa nova riqueza será empregada – se será reinvestida produtivamente dentro da China, buscando novos horizontes de crescimento, ou se buscará refúgio em outros mercados – terá implicações globais. Para o país, esse é um risco novo e, até agora, subestimado, com o potencial de redefinir fundamentalmente seu futuro, tanto internamente quanto em sua projeção no cenário mundial. A forma como a China abordará e resolverá esse dilema da herança determinará se sua notável ascensão será um legado duradouro de prosperidade ou um desafio contínuo para as gerações vindouras.

Por Marcos Puntel

Fonte: https://redir.folha.com.br

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