03/12/2026 – 15h02
No universo paralelo dos “comidinhos” -minha tradução pessoal para o abominável anglicismo “foodies”-, o assunto do momento não é a guerra no Oriente Médio ou a lambança do banco Master. Longe das manchetes que alarmam o cidadão comum, a elite gastronômica se debruça sobre temas de outra natureza, com uma paixão e um detalhismo que beiram o obsessivo.
A grande questão que inflama os grupos de WhatsApp especializados e os comentários nas redes sociais, por exemplo, é se o novo molho umami do chef Laurent Goulart justifica as cinco horas de fila no recém-inaugurado ‘Umami Experience’, ou se a nova safra de vinhos naturais do Vale dos Vinhedos realmente atingiu o ponto de perfeição prometido. Discute-se com fervor a pertinência de usar cogumelos matsutake do Japão em um prato com tucupi, e se a harmonização com sake fermentado em barrica de carvalho faz sentido ou é mera excentricidade.
Os debates sobre o futuro da gastronomia giram em torno da próxima “tendência” a ser abraçada: seria o resgate da culinária ancestral com técnicas de fermentação milenares, a ascensão da comida plant-based de alta performance, ou a volta da simplicidade rústica com ingredientes orgânicos cultivados na horta própria? Blogs e perfis de influência destrincham cada novo restaurante com três estrelas Michelin, dissecando cada garfada, cada textura, cada nuance de sabor com uma seriedade que desafia a gravidade. A busca pelo “ingrediente perfeito” ou pela “experiência única” consome horas de pesquisa, viagens e, obviamente, um orçamento considerável.
A fotografia meticulosa do prato, o ângulo da luz natural, a pose do talher sobre a toalha de linho: tudo é parte de um ritual quase religioso, compartilhado com uma comunidade que entende e reverencia cada um desses detalhes. As conversas fluem sobre a complexidade da fermentação de kombuchas artesanais, a cura de charcutaria exclusiva e a sutil diferença entre um café especial coado e um extraído a vácuo em equipamentos de última geração.
Enquanto o mundo exterior lida com geopolítica, economia e questões sociais urgentes, os comidinhos continuam sua jornada incansável em busca do próximo deleite para o paladar, da próxima descoberta que alimentará suas intermináveis discussões. A complexidade do mundo pode esperar; afinal, há um novo pão de fermentação natural sendo lançado, e a avaliação é iminente.
Por Marcos Puntel
Fonte: https://redir.folha.com.br