O agronegócio de Mato Grosso foi pego de surpresa com o encerramento repentino das operações da Aliança Agrícola do Cerrado, braço brasileiro do conglomerado russo Sodrugestvo. Sem qualquer aviso prévio, a empresa fechou todas as suas unidades no país em 14 de janeiro de 2026, uma decisão comunicada internamente e vinda diretamente da matriz internacional do grupo. O movimento gerou incerteza e preocupação, afetando diretamente estruturas estratégicas em Sinop, Querência e Porto dos Gaúchos.
Em Mato Grosso, o armazém de Porto dos Gaúchos, a unidade de atacado em Sinop e o escritório comercial de Querência foram desativados. Produtores rurais que mantinham contratos de compra e entrega de soja para a safra 2025/2026 relatam que, desde o anúncio, não conseguem contato com representantes da companhia. Ligações e mensagens para executivos ficaram sem resposta, mergulhando o setor em um limbo de indefinição.
Um dos casos mais emblemáticos é o de Porto dos Gaúchos, onde um armazém recém-inaugurado, em maio de 2024, com capacidade estática para 66 mil toneladas de grãos, agora jaz sem uso. A estrutura era considerada vital para o Corredor Norte, uma rota logística crucial para otimizar o escoamento da produção mato-grossense. Relatórios internos do ano passado indicavam “forte sinergia” e planos de expansão, tornando o fechamento abrupto ainda mais questionável e transformando um investimento promissor em um ativo ocioso.
Para os produtores locais, a saída de uma trading desse porte reduz significativamente a concorrência na compra de grãos, podendo pressionar as margens de lucro em uma safra já marcada por desafios. A apreensão é palpável, especialmente quanto ao destino da soja já entregue ou contratada para o ciclo 2025/2026, com o temor de prejuízos irreversíveis.
Por trás da Sodrugestvo está Alexander Lutsenko, um bilionário de 63 anos de origem bielorrussa e cidadania russa. Ex-oficial do Exército soviético, Lutsenko construiu um império global no agronegócio, avaliado em cerca de US$ 2,5 bilhões. No entanto, nem ele nem Danilo Dalia Jorge, o executivo responsável pela operação brasileira, se manifestaram publicamente para explicar os motivos do encerramento. O silêncio da diretoria é criticado, pois fere princípios básicos de transparência e responsabilidade corporativa, especialmente diante do grande número de produtores, fornecedores e trabalhadores afetados. Nos bastidores, crescem especulações sobre fatores geopolíticos e o ambiente internacional instável para empresas russas, mas até o momento não há confirmação oficial de que sanções econômicas tenham motivado a retirada do grupo do Brasil.
Curiosamente, do ponto de vista financeiro, a Aliança Agrícola do Cerrado não apresentava sinais evidentes de colapso. Na safra 2024/2025, a empresa registrou receita líquida de R$ 4,6 bilhões, uma queda de 7% em relação ao ciclo anterior, mas ainda com geração de caixa positiva e um EBITDA de R$ 152 milhões, com margens consideradas compatíveis com o setor. Credores afirmam que o endividamento estava sob controle e que a companhia havia, inclusive, emitido recentemente Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs). Diante desses dados, a desmobilização total das operações no Brasil soa contraditória e reforça a tese de que motivações externas à realidade econômica local podem ter sido determinantes.
O fechamento das unidades deixou um rastro de prejuízos sociais e econômicos. Em Bataguassu, no Mato Grosso do Sul, onde o grupo também atuava, a prefeitura precisou organizar um feirão emergencial de empregos. Em Mato Grosso, a saída da empresa rompe elos importantes da cadeia produtiva em municípios estratégicos do agronegócio.
A quebra de confiança preocupa todo o setor. O agronegócio brasileiro opera fortemente baseado em contratos e credibilidade. Quando uma das 20 maiores tradings do país encerra atividades de forma abrupta, o alerta se estende a todo o mercado. Agora, produtores, fornecedores e credores avaliam recorrer à Justiça para garantir seus direitos. Embora haja promessa de pagamento das rescisões trabalhistas, a ausência física e institucional da direção no país aumenta a apreensão. O súbito desaparecimento da gestão não elimina as obrigações legais deixadas para trás nas cidades mato-grossenses.
Por Marcos Puntel
Fonte: https://www.nortaomt.com.br