O cenário econômico sul-americano tem se tornado um laboratório de reformas fiscais, e a Argentina, sob a gestão de Javier Milei, emerge como um ponto de referência para analistas que observam de perto as contas públicas do Brasil. A velocidade e a intensidade das medidas adotadas pelos hermanos para sanear suas finanças são vistas por muitos como um exemplo de ajuste fiscal radical que o Brasil poderia, em parte, espelhar para enfrentar seus próprios desafios de longo prazo.

A Argentina herdou de gestões anteriores uma crise fiscal profunda, marcada por déficits crônicos, inflação galopante e uma dívida pública insustentável. Ao assumir o poder, Milei implementou um choque de austeridade que incluiu cortes drásticos de gastos públicos, revisão de subsídios, desvalorização cambial e um ambicioso plano de desregulamentação da economia. Os primeiros resultados surpreenderam: o governo argentino registrou um superávit primário inédito nos primeiros meses de 2024, sinalizando uma reversão na tendência de deterioração fiscal. Embora o custo social tenha sido considerável, com aumento da pobreza e queda na atividade econômica, o país tem visto uma desaceleração, ainda que gradual, da inflação.

No Brasil, o debate sobre a sustentabilidade fiscal é constante. Apesar de esforços para aprovar um novo arcabouço fiscal e de medidas para aumentar a arrecadação, o país ainda lida com um déficit primário persistente e uma dívida pública elevada que exige atenção. É nesse contexto que as ações de Milei ganham relevância. Para economistas brasileiros e observadores do mercado, o principal ensinamento argentino não reside na replicação cega das políticas, mas na demonstração de que é possível, com vontade política e determinação, atacar o problema fiscal em sua raiz, promovendo cortes substanciais e reavaliando o papel do Estado.

Especialistas ressaltam que, enquanto o Brasil caminha a passos mais lentos, buscando consensos políticos para cada ajuste, a Argentina de Milei demonstrou a capacidade de agir de forma intempestiva e incisiva. Contudo, as realidades políticas e sociais dos dois países são distintas. A governabilidade brasileira, dependente de ampla articulação no Congresso, torna a adoção de medidas tão radicais e rápidas um desafio imenso. Além disso, a preocupação com o impacto social de cortes abruptos é uma constante no debate público brasileiro, exigindo um equilíbrio mais delicado entre a austeridade fiscal e a proteção social.

A comparação entre as estratégias de Brasil e Argentina, portanto, não sugere uma cópia literal, mas serve como um catalisador para a discussão sobre a urgência e a profundidade das reformas necessárias. O sucesso argentino em reverter rapidamente seu quadro fiscal, ainda que com sacrifícios, pressiona o Brasil a encontrar seus próprios caminhos para um ajuste fiscal eficaz e duradouro, adaptando as lições de austeridade à sua própria realidade política e social.

Por Marcos Puntel

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br

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