A morte recente de Lucimar das Neves Ferreira, aos 51 anos, filho de dona Lourdes, reabre dolorosas feridas de uma tragédia que marcou o Brasil há quase 40 anos: o acidente radiológico com o Césio-137 em Goiânia. O sofrimento prolongado dessa família é novamente trazido à luz pelo curta-metragem “Lourdes e Leide”, do diretor Angelo Lima, recém-exibido no Festival Bonito CineSur, no Mato Grosso do Sul, que acompanha o cotidiano solitário da mãe, assombrado pelas memórias da filha Leide, que morreu aos seis anos de idade devido à exposição radioativa.

Filmado no ano passado, o documentário de Lima resgata a memória de uma “tragédia silenciosa” que, segundo o diretor, “foi uma tragédia dentro de uma família, uma família que sofreu muito e perdeu várias pessoas, imediatamente”. Emocionado após a exibição no festival, Lima não hesitou em apontar responsabilidades: “Eu sempre culpo o Estado. Eu não vou culpar os catadores, nem vou culpar a família. Essa é uma tragédia que eles não tinham dimensão do que era. E alguma coisa precisa ser feita para reparar esses danos”.

O cenário de dor remonta a 13 de setembro de 1987, quando os catadores Wagner Mota Pereira e Roberto Santos Alves entraram no Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), no centro de Goiânia. Lá, encontraram um equipamento de radioterapia abandonado. Ao removerem o lacre de uma cápsula, descobriram um pó que brilhava intensamente no escuro, semelhante a sal de cozinha: o Césio-137. Sem qualquer conhecimento do perigo, eles se tornaram as primeiras vítimas de uma cadeia de eventos que culminaria no maior incidente radiológico da história do Brasil.

A substância radioativa chegou à casa de Lourdes e Leide alguns dias depois. Wagner e Roberto venderam o material para o ferro-velho de Devair Alves Ferreira, que, igualmente fascinado pela luminosidade, compartilhou a “descoberta” com familiares e amigos. A manipulação desinformada causou sintomas imediatos como náuseas, tonturas, vômitos e diarreia. O irmão de Devair, Ivo Ferreira, levou um pouco do pó para a filha, Leide das Neves, que, ao ingeri-lo, foi fatalmente exposta. A menina faleceu poucos dias depois, em 23 de setembro, e precisou ser enterrada em um caixão de chumbo de 700 quilos para conter a radiação que seu corpo ainda emitia. Além dela, outras três pessoas morreram semanas após a exposição.

Anos depois, a mesma família sofre mais uma perda. Lucimar das Neves Ferreira, que tinha 14 anos na época do acidente e também foi internado, faleceu nesta última semana. Embora recebesse uma pensão do Estado, sua saúde se deteriorou, culminando em um violento enfisema pulmonar, agravado, segundo o diretor Lima, pelo alcoolismo. “Ela está muito chocada”, relatou o cineasta. Marcelo Santos Neves, presidente da Associação das Vítimas do Césio-137 (AVCésio), lamentou a morte, afirmando que “com essa perda, tudo relembra aqueles dias difíceis” e que a associação dará o máximo de apoio a Lourdes, que já “está calejada com essas dores de perda da filha”.

A tragédia do Césio-137 não se resumiu às mortes e doenças. A família de dona Lourdes foi alvo de um estigma social avassalador. “Naquela época, eles não podiam chegar na rua… as pessoas falavam: ‘olha aí o pessoal do Césio’ e trancavam as portas. Eles tiveram que se mudar várias vezes”, contou Angelo Lima, lembrando que “no enterro da Leide, chegaram a jogar pedras”. O diretor ressalta: “Isso acaba com a vida de todo mundo. Destrói famílias”.

O curta “Lourdes e Leide” e uma pequena exposição de fotos no Bonito CineSur, com imagens da pequena Leide e de seu enterro, buscam manter viva a memória desse doloroso capítulo. Angelo Lima defende que a tragédia “poderia acontecer com qualquer um” e que a sociedade brasileira precisa estar mais preparada. Sua crítica final é contundente: “Eu acho que, em termos governamentais, nada mudou. As pessoas esqueceram disso rapidamente, porque quiseram esquecer rapidamente. E não tiveram humanidade”.

Por Marcos Puntel
A repórter viajou a convite do Bonito CineSur.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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