A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano celebra a vida e a obra de Orides Fontela, uma poeta cuja maestria na concisão e no rigor da linguagem revelou reflexões de profunda densidade filosófica desde seus primeiros versos. Nascida em São João da Boa Vista, no interior paulista, Orides já demonstrava um talento singular na adolescência, quando seus poemas começaram a circular e a chamar a atenção de figuras como Davi Arrigucci Jr., que a incentivou a reunir seus escritos e a se mudar para a capital paulista.

Arrigucci Jr., hoje crítico literário e professor aposentado da USP, foi um dos primeiros a reconhecer o brilho da poeta. “Ele encontrou com Orides, casualmente, ali na cidade e falou: ‘Você tem mais coisa? Deixa eu ver’. E ela mostrou uma pasta de poemas dela. Ele achou aquilo muito bom, levou para São Paulo e deu na mão de críticos”, relatou Cristina Yamazaki, editora da Hedra, responsável pela recente reedição das obras de Fontela. Desde o início, Orides angariou entusiastas de peso como o crítico literário Antonio Candido, que cunhou a expressão “parcimoniosa opulência” para descrever sua obra, e a filósofa Marilena Chaui, que viria a ser sua professora na USP.

Filha de um marceneiro e uma dona de casa, alfabetizada pela mãe, Orides é descrita por Yamazaki como uma “poeta pronta” desde o princípio. Sua capacidade de produzir múltiplos significados com poucas palavras, unindo densidade poética e filosófica, era uma marca inconfundível. “Ela consegue produzir muito significado com poucas palavras”, enfatizou a editora, explicando que Orides depurava a linguagem “até chegar ao âmago da palavra”, buscando um “núcleo do silêncio” que é parte intrínseca de seus poemas. A formação em filosofia da autora também ecoa em sua produção, a exemplo do poema “Kant (relido)”, evidenciando uma escrita que se afastava do autobiográfico.

Ao longo de sua carreira, Orides Fontela publicou cinco livros de poesia – Transposição (1969), Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986) e Teia (1996). Com Alba, que contou com prefácio de Antonio Candido, ela conquistou o Prêmio Jabuti na categoria Poesia. Para celebrar seu legado, a Flip de 2024 trará três lançamentos inéditos pela Hedra: um livro de poemas ilustrado para crianças e jovens, uma coletânea de escritos críticos e entrevistas, e uma nova edição, revista e ampliada, de sua biografia. Além disso, a editora reeditou todas as suas obras publicadas.

O trabalho de reedição, conduzido em conjunto com a organizadora Ieda Lebensztayn e Augusto Massi, amigo e editor de Orides, incluiu uma minuciosa pesquisa de manuscritos e datiloscritos, revelando materiais inéditos e anotações que a própria poeta incorporou. Uma curiosidade sobre sua produção é que, devido às dificuldades em encontrar editoras, Orides costumava fazer cópias de seus originais, que circulavam entre poucos. Cada livro da autora era meticulosamente planejado em sua estrutura e ordem de poemas, uma particularidade que as edições avulsas da Hedra buscam resgatar, valorizando seu processo criativo.

Apesar do reconhecimento no meio literário, a trajetória de Orides foi marcada por estereótipos e uma narrativa que, por vezes, a reduziu a uma “personagem quase folclórica”, focando em seus conflitos pessoais e dificuldades financeiras. O biógrafo Gustavo de Castro critica essa visão que deslocou o foco de sua obra literária. Cristina Yamazaki corrobora, apontando que o fato de Orides ser “mulher, poeta, pobre, não se encaixar num padrão da sociedade” prejudicou seu reconhecimento amplo, diferentemente do que ocorria com “poetas malditos” homens, que eram admirados.

A escolha da curadora Rita Palmeira de homenagear Orides Fontela na 24ª edição da Flip é, portanto, um passo importante para expandir o alcance de sua poesia, que, embora aclamada entre os poetas — “ela é muito conhecida entre os poetas. É como se ela fosse a poeta entre os poetas”, afirmou Cristina —, ainda não havia conquistado o grande público. A programação da Flip incluirá conversas e lançamentos, como a segunda edição do livro O Nervo do Poema: Antologia para Orides Fontela, prometendo uma imersão profunda em sua obra.

Entre os eventos de destaque, estão o lançamento de “Pelos Olhos de Orides Fontela” na Casa Da Árvore, a “Ressonância Orides” na Casa de Cultura com a reedição de O Nervo do Poema, e discussões sobre a reedição e a recepção de sua obra na Casa MinC. A Flip, que segue até domingo, dia 26, oferece mesas de conversa na programação oficial e atividades gratuitas, celebrando o legado perene de Orides Fontela.

Por Marcos Puntel

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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