Há décadas, Brasil e Estados Unidos, os dois maiores produtores mundiais de etanol, travam uma complexa e persistente disputa por acesso mútuo a seus respectivos mercados. A controvérsia, que envolve barreiras comerciais e modelos de produção distintos, permanece um entrave significativo nas relações bilaterais, impedindo uma maior liberalização do comércio do biocombustível.
No centro do embate está a distinta matriz produtiva de cada nação. O Brasil se destaca pelo etanol de cana-de-açúcar, conhecido por sua eficiência energética e menor pegada de carbono, sendo frequentemente considerado mais sustentável. Por outro lado, os EUA são líderes na produção de etanol à base de milho, uma indústria robusta e com forte apoio governamental. Essa diferença não é apenas técnica; ela permeia as justificativas para as políticas protecionistas de ambos os lados.
Historicamente, o mercado norte-americano tem sido protegido por tarifas de importação que visam resguardar sua vasta indústria de milho e a cadeia de valor a ela associada. Tais medidas foram implementadas para garantir a competitividade do etanol de milho contra o produto brasileiro, geralmente mais barato e eficiente. Em contrapartida, o Brasil, embora defendendo a livre concorrência para seu produto, por vezes impôs quotas ou sobretaxas à importação de etanol dos EUA, especialmente em momentos de supersafra doméstica ou para proteger sua própria produção de eventuais excessos de oferta no mercado internacional.
Washington argumenta a necessidade de manter a segurança energética e de apoiar sua vasta cadeia agrícola ligada ao milho, além de citar as especificidades de sua política de biocombustíveis, como o Renewable Fuel Standard (RFS), que estabelece mandatos para a mistura de etanol na gasolina. Brasília, por sua vez, ressalta a superioridade ambiental e econômica de seu etanol de cana, que frequentemente é mais competitivo em custo e tem um ciclo de vida com emissões de gases de efeito estufa significativamente menores. O governo brasileiro advoga que o livre comércio permitiria que o mercado global escolhesse a opção mais eficiente e limpa.
Apesar de discussões periódicas, grupos de trabalho conjuntos e visitas diplomáticas ao longo dos anos, um acordo abrangente para a liberação do comércio de etanol entre os dois gigantes nunca se concretizou. Essa situação não apenas limita o potencial de crescimento das indústrias de etanol em ambos os países, mas também impede que os mercados globais se beneficiem plenamente da opção mais eficiente e sustentável disponível. Em um cenário de busca global por descarbonização e transição energética, a harmonização das políticas de etanol entre os dois maiores produtores poderia representar um avanço significativo, acelerando a adoção de combustíveis mais limpos em escala global.
A expectativa de que o diálogo possa, eventualmente, levar a uma solução mutuamente benéfica persiste, mas a complexidade dos interesses econômicos e políticos envolvidos garante que o embate pelo etanol continuará a ser um capítulo importante nas relações econômicas entre Brasil e Estados Unidos.
Por Marcos Puntel