Cerca de 30 mil crianças nascem anualmente no Brasil com alguma malformação cardíaca, um dado alarmante do Ministério da Saúde que joga luz sobre a cardiopatia congênita, condição que afeta globalmente cerca de 1% dos nascidos vivos. Nesta sexta-feira, 12 de novembro, Dia Nacional de Conscientização sobre a Cardiopatia Congênita, especialistas destacam avanços significativos no país.

A coordenadora da Divisão de Cardiologia da Criança e do Adolescente do Instituto Nacional de Cardiologia (INC), Renata Mattos, ressalta que, embora ainda haja disparidades regionais – com maior acesso no Sudeste em comparação ao Norte, por exemplo –, o cenário geral aponta para um aumento no diagnóstico e uma melhoria progressiva no acesso ao tratamento. A cardiopatia congênita, explica a cardiologista pediátrica, engloba diversas anomalias na estrutura do coração que se desenvolvem ainda durante a gestação.

A detecção precoce é crucial. Quando o problema é identificado ainda no útero, por meio do ecocardiograma fetal, o principal benefício é o planejamento do parto. Em casos que exigem intervenção imediata ao nascer, o bebê pode ser encaminhado para um centro com UTI e equipe especializada para cirurgia ou cateterismo, aumentando suas chances de sobrevivência. O Ministério da Saúde recomenda o ecocardiograma fetal entre a 24ª e a 28ª semana de gestação. Após o nascimento, o Teste do Coraçãozinho, triagem neonatal obrigatória realizada entre 24 e 48 horas de vida na maternidade, é vital para identificar cardiopatias críticas.

No entanto, nem todos os casos são diagnosticados tão cedo. Pais e cuidadores devem estar atentos a sinais como dificuldade em ganhar peso, cansaço ou dificuldade para mamar, respiração acelerada, e lábios ou pontas do nariz arroxeados. Em crianças mais velhas, dor no peito ou palpitações podem indicar a necessidade de avaliação cardiológica.

A boa notícia é que, com diagnóstico e acompanhamento adequados, a grande maioria dos pacientes com cardiopatia congênita pode levar uma vida normal. “Quando você diagnostica direitinho, a possibilidade de a pessoa ter uma vida normal é imensa”, afirma Renata Mattos. O tratamento pode variar de um único procedimento a múltiplas cirurgias ao longo da vida, mas os avanços médicos permitem que esses pacientes não apenas sobrevivam, mas prosperem. A médica enfatiza que, diferentemente do passado, hoje se estimula a prática de exercícios físicos. Com o envelhecimento desses pacientes, o acompanhamento se torna ainda mais importante, visando também problemas comuns à vida adulta, como hipertensão e colesterol alto.

Um exemplo vivo dessa realidade é Nathan Senna Alves, hoje com 30 anos. Diagnosticado com cardiopatia congênita grave ao nascer, Nathan foi acolhido pela instituição Pró Criança Cardíaca, onde realizou seu acompanhamento e suas três cirurgias – a primeira aos 2 anos, as seguintes aos 6 e 18 anos. Casado e pai de um filho de 12 anos, Nathan não teve complicações após a última cirurgia e segue sua vida normalmente, com acompanhamento médico no Sistema Único de Saúde (SUS). A cardiologista pediátrica Rosa Célia, fundadora do Pró Criança Cardíaca, destaca que histórias como a de Nathan demonstram a importância do acesso à saúde: “Quando há diagnóstico precoce e acesso ao tratamento adequado, a cardiopatia congênita não precisa definir os limites de uma vida”. Em três décadas, a instituição atendeu mais de 16 mil crianças e adolescentes, realizando 130 mil atendimentos gratuitos.

O Sistema Único de Saúde (SUS) desempenha um papel fundamental, oferecendo acompanhamento integral, desde o pré-natal com o ecocardiograma fetal e o Teste do Coraçãozinho, até cirurgias de alta complexidade e toda a linha de cuidado especializada, custeada integralmente. Esses pilares são essenciais para garantir que mais crianças com cardiopatia congênita, como Nathan, tenham a chance de crescer, trabalhar e viver plenamente.

Por Marcos Puntel

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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