A possível inclusão da tilápia, um dos peixes mais cultivados no Brasil, na lista nacional de espécies exóticas invasoras, está gerando um alerta de prejuízo milionário e profunda apreensão no agronegócio brasileiro. A proposta, em discussão por órgãos ambientais, coloca em xeque a sustentabilidade de uma indústria que movimenta bilhões de reais anualmente.
Defensores da medida, ligados a entidades de proteção ambiental e pesquisa, argumentam que a tilápia, de origem africana, possui alta capacidade reprodutiva e de adaptação. Sua presença em ecossistemas naturais fora de cativeiro pode desequilibrar a fauna aquática nativa, competindo por alimento e habitat, além de potencial para transmissão de doenças.
Por outro lado, o setor aquícola reage com veemência. A Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR) e a Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA) estimam que a proibição ou restrição severa do cultivo e comercialização da tilápia poderia causar perdas superiores a R$ 8 bilhões em poucos anos. Isso resultaria na falência de milhares de produtores, desemprego em massa e um impacto socioeconômico devastador, especialmente em regiões onde a piscicultura é a principal fonte de renda.
Com uma produção que ultrapassou 550 mil toneladas em 2023, a tilápia representa mais de 60% de toda a piscicultura nacional. Sua cadeia produtiva abrange desde a produção de alevinos e ração até o processamento e comercialização, gerando centenas de milhares de empregos diretos e indiretos, com um crescimento médio anual de dois dígitos na última década.
A discussão ganhou força após a consulta pública para a revisão da Portaria do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), que lista as espécies ameaçadas e exóticas. Produtores e associações têm se mobilizado para apresentar dados técnicos e estudos que contrapõem a tese de que a tilápia, quando criada em sistemas controlados e com rígidos protocolos de biossegurança, represente um risco incontrolável para a biodiversidade. O temor é que uma decisão precipitada, baseada apenas em preocupações ecológicas sem ponderar os impactos econômicos e sociais, comprometa um setor vital para a segurança alimentar e o desenvolvimento regional do país.
A balança entre a conservação ambiental e a sustentabilidade econômica da aquicultura se mostra delicada, e a definição sobre o futuro da tilápia no Brasil promete ser um dos debates mais acalorados no cenário do agronegócio nos próximos meses.
Por Marcos Puntel