No debate público sobre o futuro do turismo, uma fórmula sedutora ressurge com frequência. Ela propõe que o setor, dono de um potencial imenso, estaria estagnado por deficiência gerencial. A solução, então, seria a entrada de profissionais “do mercado”, munidos de planos de longo prazo e indicadores-chave de desempenho (KPIs), para finalmente destravar empregos e o Produto Interno Bruto. É um diagnóstico, sem dúvida, confortável, mas profundamente equivocado, pois trata o turismo como uma ilha, separada do restante do país.
Essa visão simplista ignora a complexidade inerente ao desenvolvimento turístico, que não pode ser dissociado de um conjunto intrincado de fatores nacionais. O turismo não prospera no vácuo; ele é um reflexo e um resultado da qualidade de vida, da infraestrutura e da segurança de um país. De que adiantam os mais sofisticados planos de marketing e KPIs se as estradas de acesso estão em ruínas, o saneamento básico é deficiente ou a segurança pública é precária?
A realidade é que um destino turístico vibrante e sustentável depende de pilares que transcendem a mera gestão do setor. Exige investimentos contínuos em infraestrutura de transporte (aeroportos, portos, rodovias), mas também em saneamento, energia e conectividade digital. Demanda políticas eficazes de segurança para garantir a tranquilidade de visitantes e moradores. Requer um sistema educacional que prepare mão de obra qualificada para hotéis, restaurantes e serviços, ao mesmo tempo em que fomenta uma cultura de acolhimento e respeito.
Adicionalmente, a preservação ambiental e a valorização cultural são ativos insubstituíveis. Praias poluídas, florestas desmatadas ou patrimônios históricos em ruínas não atraem turistas, independentemente do quão bem-sucedida seja a estratégia de “mercado”. O desenvolvimento turístico, em sua essência, é um projeto de nação, que integra políticas de meio ambiente, cultura, segurança, educação, saúde e desenvolvimento social.
Delegar a solução para o turismo apenas a “alguém do mercado” com KPIs é uma receita para a frustração. Embora a boa gestão seja indispensável, ela é apenas uma peça do quebra-cabeça. O verdadeiro potencial do turismo é destravado quando o país como um todo se organiza, oferecendo um ambiente seguro, limpo, culturalmente rico e eficientemente conectado. O setor, assim, não age à parte, mas como um termômetro e um catalisador de um desenvolvimento nacional mais amplo e integrado.
(10/09/2026 – 19h39)
Por Marcos Puntel
Fonte: https://redir.folha.com.br